Por que elaborar o luto gestacional?

“Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar”

Chico Buarque - Pedaço de Mim

 

 Hope, Gustav Klimt.

 

A maternidade é algo que transcende o período gestacional e tudo que está por vir. A idealização de um filho, começa cedo, de forma inconsciente - desde o brincar infantil até as progressões e expectativas da vida adulta - a escolha de uma carreira, o casamento, a estabilidade financeira e finalmente o momento planejado de ter um filho. Outras vezes, ocorre de forma inusitada e sem qualquer planejamento.

De qualquer maneira, existe sempre um sonhar o filho que está sendo gestado, e toda uma adaptação para receber esse bebê.

A confirmação de uma gravidez vem carregada de muitas expectativas. Algumas mulheres imaginam que com a chegada do filho se sentirão completas, que encontrarão ali um novo sentido para a vida. Os pais criam fantasias e muitas vezes projetam nesse filho que está por vir, seus desejos narcísicos, ou seja, aquilo que gostariam de ter sido, de ter realizado.

Além disso, durante a gestação o corpo da mulher sofre intensas modificações: sono, enjoos, fome, ganho de peso, alteração hormonal, privações na alimentação, mudança na pele, roupas que não servem mais e precisam ser substituídas, mudança de identidade perante o espelho. Sua rotina passa a ter idas constantes a médicos.

Algumas grávidas se sentem mais bonitas, orgulhosas, outras não; se sentem agredidas e invadidas.

Socialmente a grávida possui um lugar de prioridade nos atendimentos, serviços e muitas vezes, mobilizam as pessoas para um cuidado especial. A gravidez é compartilhada com os amigos, familiares e a partir disso, novas expectativas e projeções são criadas em conjunto.

O estado emocional da grávida, também se altera: pode se tornar mais frágil, demandar uma atenção diferenciada. É comum episódios de irritabilidade e hipersensibilidade. Em termos psíquicos, durante a gestação, ocorre o fenômeno de transparência psíquica, conceito criado por Monique Bydlowski, e que diz respeito a um estado particular do psiquismo, em que os fragmentos do pré consciente e do inconsciente chegam facilmente à consciência. Ou seja, a grávida tem um acesso particular a conteúdos até então desconhecidos, e que se tornam acessíveis durante a gestação. É uma abertura psíquica sensível que traz a tona para a nova mãe suas primeiras experiências como bebê ao lado de sua própria mãe.

Essas são algumas vivências que as mulheres atravessam quando se descobrem grávidas, desde as primeiras semanas até o final do nono mês, se essa, se mantém até o fim. Essas vivências são únicas e deixam marcas.

E quando ocorre uma interrupção abrupta inesperada ? Quando após tantas modificações corporais, psíquicas, a mulher se vê sem o seu bebê? Se vê de encontro com o abismo da perda. Uma perda sem contorno. Quando se perde o bebê ainda na barriga, é ainda mais difícil dar forma a este luto, o que dificulta ser reconhecido a sua existência e os impactos da sua perda.

E agora? O que fazer?

O senso comum perante essa situação traz frases do tipo “você é jovem, poderá engravidar novamente”, e iniciam logo sugestões para novas tentativas como se o novo bebê pudesse substituir aquele que se foi.

Seria possível apagar rápido e inteiramente todo esse tornado de transformações ? Engravidar novamente seria a solução para tanta dor?

Para esses bebês que vieram após a perda gestacional, criou-se inclusive o nome de “bebês arco - irís” - os que nascem destinados a trazer cores novamente à família. Bebês que remetem a esperança de tempos melhores.

É preciso ter cautela com a função que se determina para um bebê que vem em seguida de uma perda.

Um bebê nunca vem pré-destinado a cuidar da ferida dos pais, nem para substituir o irmão ou mesmo para trazer cores para a família, e poderia sofrer com o peso dessas expectativas advindas de todo esse processo.  

"... uma criança não nasce para aliviar, nasce e assim que nasce exige seu próprio alívio. Uma criança não chora para abrir nos outros a possibilidade de um sorriso; chora para que a tomem nos braços, e a protejam, e calem com carícias o desabrigo implacável que desde tão cedo a atormenta." Júlian Fuks - A Resistência

Cada filho é único. O filho que se perdeu teve uma história, uma importância e um lugar. A mãe com esse bebê, passou por infinitas transformações subjetivas, como algumas que foram citadas no começo e isso não pode ser apagado, substituído ou passado por cima.

Um outro bebê é um outro ser, que irá escrever outra história, a sua própria história.

Assim como a mãe, cada gravidez é única, cada filho é único, assim como toda e qualquer experiência. A mãe nunca é a mesma com os filhos, ela é única para cada relação. A experiência da maternidade, de cada gestação é uma oportunidade para a mãe ou a figura materna, retificar o caminho do seu conhecimento pessoal.

O filho que se foi, necessita de um lugar simbólico na vida dos pais, único e insubstituível. A elaboração do luto oferece esse lugar, acalma a dor da ferida aberta e abre espaço para a criação de uma nova história mais livre e independente.

 

“Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais”

Chico Buarque - Pedaço de Mim

 

 

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