"O Amor nos Tempos de Solidão"

“Contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos,

a defesa mais imediata é o isolamento voluntário,

o manter-se à distância das outras pessoas.” (Freud, 1929)

 

 

Em dezembro realizamos nossa última roda do ano e temos muito o que agradecer neste ano de inauguração do nosso projeto: ao Microcidade pelo apoio e incentivo, além da parceria firmada com o projeto "Vamos falar sobre o Luto", iniciativa sensível e delicada, que oferece um canal de inspiração e informação para quem vive o luto e para quem deseja ajudar.

 

Realizamos as últimas rodas na Casa Arca, que oferece um espaço que favorece o compartilhar em um ambiente intimista e reservado.

 

Escolhemos o tema "O Amor nos Tempos de Solidão", inspirado no curta 14º Arrondissement do filme "Paris, te amo", dirigido por Alexander Payne. O filme relata a história de Carol, uma mulher com o sonho de conhecer Paris, cidade que imaginava encontrar inspiração, aventura e amor. Mas o que ela encontra nesta viagem é a sua própria solidão.

 

Foram levantadas questões como "O que é se sentir só? O que é a solidão?", que funcionaram como disparadores para diversas reflexões acerca da presença do outro na vida de alguém. Estar com o outro não nos coloca no plano da completude, mas sim em contato com a falta. Medo, vazio, solidão... são alguns dos sentimentos que a falta nos provoca.

 

Para a psicanálise, a forma que lidamos com a falta se conecta com nossas experiências iniciais à partir do nascimento. Como nas primeiras relações que o bebê estabelece com o outro (inicialmente encarnado pela função materna), uma relação de dependência absoluta. A partir de uma presença inicial totalitária, o bebê experimenta momentos em que esse outro passa a se ausentar. É a partir desse afastamento que o bebê começa a elaborar a falta que o outro lhe causa.

 

Em um de seus textos, Freud observa através de uma brincadeira do seu neto com um carretel, que o bebê tenta simbolizar a ausência materna ao brincar de fazer aparecer e esconder um objeto. O fato da criança eleger um objeto no lugar do outro (no caso, sua mãe) já indica um processo de elaboração da falta, onde ele passa a ter uma presença mesmo em ausência. É por essa via que a criança começa a construir sua capacidade de estar só.

 

O trabalho do luto, por exemplo, é uma reação diante de uma perda. Ao perder o objeto amado (algo ou alguém que se tem afeto), o sujeito direciona libido para si, voltando toda sua atenção para a perda que o envolve. O desenvolvimento normal do luto ocorre com o passar do tempo, de modo que a ferida se torne uma pequena parte de si e a libido seja reinvestida em outros objetos. Já no luto patológico, o sujeito deprime e apesar da passagem do tempo, permanece fechado em si, negando a perda, sem olhar para o mundo externo e aprisionado no passado.

 

Assim como o brincar para a criança é uma via de elaboração da perda do objeto, a construção de uma narrativa pode ser uma via possível desse processo para o adulto, ou seja, reconhecer que algo se perdeu e elaborar um novo sentido dessa perda, para que um novo rumo seja alcançado. Essa seria uma saída criativa para redirecionar o objeto perdido, mantendo-o presente em sua ausência. Ao elaborar uma perda, o sujeito consegue reinvestir seu olhar para o mundo externo e fazer novos vínculos. No curta apresentado, escutamos a narrativa e o discurso da protagonista Carol elaborando suas faltas.

 

Ressignificar perdas é justamente dar uma saída criativa para o que se perdeu, sem que essa lembrança seja apagada. Assim, o sujeito consegue reinvestir seu olhar para o mundo externo, integrar seu ego e fazer novos vínculos. O sentimento de solitude seria aceitar as ambivalências, o silêncio e o vazio. A liberdade de se sentir bem acompanhado com si mesmo. Como diria a personagem do curta: "Ao mesmo tempo senti uma mistura de sentimentos: alegria e tristeza. Mas não uma tristeza imensa, porque me sentia viva. Este foi o momento que comecei a me apaixonar por Paris... E que senti que Paris se apaixonava por mim."

 

Nós acreditamos na troca e compartilhamento que as rodas de conversa propiciam, que podem ter o potencial de ressignificar vivências.

 

Durante a roda debatemos sobre as defesas que assumimos contra a solidão: o sentimento de independência como uma negação ou, em outro extremo, na aproximação exagerada com as pessoas, afim de evitar a solidão. Um exemplo na atualidade seria o uso excessivo das redes sociais, tema eleito para nossa próxima roda.

 

A partir das contribuições dos participantes da roda, que ouviram atentamente e cuidadosamente a fala do outro, pudemos caminhar para um encerramento onde encontramos a parte boa da solidão: “ O cultivo da solidão, é o cultivo do Outro que nos habita”.

 

 

 

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