Visita ao Centro Lydia Coriat

 Multiform, Mark Rothko

 

A possibilidade de começar do zero é uma ilusão que vem com a chegada de um ano novo. Um almejado reset revela que nosso psiquismo ainda procura se agarrar à uma ficção: aquela que nos reservaria, com os novos tempos, a chance de nos tornarmos muito maiores e melhores do que realmente somos ou fomos até então. No entanto, não conseguimos nos livrar dos entraves da nossa própria história, da nossa neurose ou dos dolorosos vestígios de limitações que a vida nos impõe. A onipotência da autodeterminação esvai-se à medida que janeiro avança.

 

No apagar das luzes de um ano esgarçado, resta-nos, portanto, transformar a relação que estabelecemos com nossa humilde condição humana, fazer o luto de algumas perdas que recolhemos pelo caminho, e, se possível, com um pouco de sorte, lançar-nos à construção de novos enredos para laços mais significativos e generosos, num mundo onde nossos semelhantes sofrem também de iguais mazelas – confessem-nas ou não.

 

Foi assim, desejosa de um bom começo para 2018, que eu, por conta de interesses profissionais, parti para Porto Alegre em ótima companhia de minha amiga Carla Belintani. O objetivo era conhecer o Centro Lydia Coriat e participar de um de seus cursos intensivos sobre a clínica interdisciplinar para crianças e adolescentes com problemas de desenvolvimento. 

 

Lá me deparei com um encanto. Profissionais de diferentes áreas – fonoaudiologia, psicomotricidade, pedagogia, psicanálise – reunidos em torno de um fazer clínico e dispostos a atender, em suas especialidades, crianças e adolescentes para além de suas doenças, síndromes ou supostas deficiências, levando em conta o advir e as consequências do psiquismo e da subjetividade, irredutíveis às margens totalizantes de um corpo estritamente orgânico. 

 

Nessa equipe, a Ciência, como abstração dogmática, supostamente capaz de dar resposta final e definitiva a respeito do ser humano (segundo Roudinesco), cai por terra e cede espaço às ciências, em que diferentes especialidades e campos do conhecimento coexistem, interrogam-se mutuamente e articulam-se no tratamento do paciente, sem jamais perder de vista seu norte, isto é, o sujeito de desejo, marcado por sua singularidade e suas potencialidades.

 

Numa sociedade competitiva como a nossa, onde se exige do outro uma irretocável e incansável performance, é um grande alento constatar que, em Porto Alegre, bem como em muitos outros cantos do Brasil (representados pelas alunas do curso), a Psicanálise resiste bravamente aos tratamentos repetitivos e adaptativos e segue viva, com seu olhar e respeito pelo sujeito.

 

Uma brisa nos tempos em que vivemos, e uma ótima maneira de começar o ano.

 

Feliz 2018!

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