Visita ao Freud Museum em Londres

9 May 2018

 

No início do mês de maio de 2017, durante uma viagem a Londres com meu marido, tive o enorme prazer de visitar pela primeira vez o Freud Museum. A experiência não poderia ter sido melhor. Foi realmente incrível estar pessoalmente na casa em que Freud passou seu último ano de vida, justamente na semana de comemoração de seu aniversário.

No dia da visita, me programei para chegar exatamente ao meio dia, horário da abertura do museu, para conseguir tirar o máximo proveito. Ao descer na estação Finchley Road do metrô, já era possível acompanhar as placas, o frio na barriga começou e logo imaginei Sigmund Freud caminhando por aquelas ruas tranquilas e arborizadas, com casas espaçosas e clima familiar. Chegando ao número 20 da rua Maresfield Gardens, foi intensa a emoção de chegar até a porta e entrar sem bater, como uma amiga íntima. Logo fui envolvida por uma atmosfera apaixonante e passei pelo hall de entrada em direção aos fundos da casa, onde encontrava-se a recepção e um belo jardim. Compramos as entradas e alugamos o áudio guia, fundamental para compreender de maneira clara e objetiva a trajetória de Freud, seus estudos, suas paixões e o significado de seus inúmeros objetos.

Algum tempo depois fomos recebidos com simpatia pelo Stefan. Ele nos acompanhou pelo museu contando sua trajetória e explicando os trabalhos educacionais promovidos em conjunto com instituições importantes, workshops direcionados às crianças de escolas primárias, o departamento de investigação da biblioteca pessoal, a coleção de Freud e sua filha Anna, e se colocou inteiramente à nossa disposição. Também contamos com o apoio dos queridos voluntários que lá trabalham, sempre atentos aos visitantes e dispostos a esclarecer dúvidas. Na ocasião, a prestativa Elisabetta trouxe inúmeros livros de pesquisa do meu interesse e me direcionou ao curador Bryony, quando demonstrei curiosidade sobre os fragmentos de pinturas da cidade de Pompéia, localizados na enigmática sala de atendimento do Dr. Freud.

Estive bem perto do famoso divã e da escrivaninha, rodeados por móveis, tapetes e inúmeros objetos arqueológicos de sua coleção, sem falar nas paredes cobertas por livros e estudos da antiguidade. A sala foi organizada por sua filha Anna, que fez de tudo para torná-la parecida com a casa que moravam em Viena. Tudo está muito bem preservado até os mínimos detalhes, como os óculos e objetos em cima da escrivaninha. A impressão foi de que Freud poderia aparecer a qualquer momento, fumando seu charuto pelos cômodos da casa e dialogando com sua mente inquieta. Foi realmente impressionante notar o quanto sua presença ainda permanece na casa.

Em um de seus textos como “O Homem dos Lobos”, Freud escreve: “O psicanalista, assim como o arqueólogo em suas escavações, deve revelar as sucessivas camadas da psique do paciente, até chegar aos mais profundos e valiosos tesouros”. Freud sustentava a ideia de que ninguém poderia esquecer seu passado, pois assim como as ruínas arqueológicas, nossa história pessoal primitiva nos acompanha por toda a vida. Isso o tornava um verdadeiro ¨escavador¨ da mente humana.

A presença de Anna Freud também é um grande ponto atrativo do museu. Seu quarto cercado por objetos pessoais e estudos sobre a psicanálise infantil merecem um destaque especial, já que foi a única filha a seguir o caminho de seu pai e que também contribuiu muito com o desenvolvimento da psicanálise.

Ao fim da visita voltamos a conversar com o Stefan, que havia acabado de supervisionar o trabalho de estudantes de psicologia, e passou a mensagem de que o museu recebe pouco financiamento público e depende muito de incentivo e doações privados, para que o legado de Freud seja preservado. Com isso, a equipe investe em pesquisas de geração de conteúdo intelectual, bem como na produção de conferências e eventos voltados à educação. Além disso, assim como grande parte dos museus na Europa, havia uma lojinha simpática nos fundos da casa, onde comprei livros e algumas lembrancinhas, com a intenção de contribuir de alguma forma.

Acredito que o museu seja um grande patrimônio para a psicanálise e para a humanidade, por isso recomendo a visita ao Freud Museum não apenas aos “médicos que exercem a psicanálise”, mas especialmente a quem não o conhece e se permite surpreender. Pretendo sem dúvida retornar inúmeras vezes ao museu, como quem retorna a uma casa estranhamente familiar, mas com inúmeros enigmas ainda a serem revelados.


 

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