"Te recolher pra sempre
À escuridão do ventre, curuminha
De onde não deverias
Nunca ter saído"

 

Chico Buarque - Uma canção desnaturada

 

 

Um título forte, intimista e perturbador... mas o que seria uma mãe devoradora?

 

Para disparar o debate nessa roda, escolhemos o episódio “Arkangel” que conta a história de 

uma mãe solteira que passa pela traumática experiência de perder sua filha de três anos em um parque. Após isso, Maria, (a mãe) decide implantar um chip no cérebro de sua filha e a partir disso ter a possibilidade de controlar sua localização e até mesmo aquilo que ela pode ou não ver. Maria pode através de um tablet, ver tudo o que a Sarah vê, e se torna o filtro de suas experiências, podendo evitar inclusive que a criança tenha acesso as cenas traumáticas e angustiantes. Poucos minutos de exibição mas que trazem o retrato de uma mãe como uma figura onipotente que tem acesso e controle absoluto sobre sua filha.

 

Mas qual seria a medida entre cuidar e proteger?

 

Essa ficção pertence à um episódio da série Black Mirror, dirigido por Jodie Foster. Como toda ficção, carrega um fundo de realidade. Qual mãe não se preocupa e se angustia com seu filho e adoraria ter acesso a tudo que esse faz?

 

O amor carrega um pouco de devo(ra)ção, amar também é desejar, ter, possuir e alimentar-se do objeto amado.  O amor é um sentimento que cresce, invade e transforma. Em nome dele, direcionamos nossos atos. Amor que de tão grande se torna desmedido. Devorar é querer de dois, fazer um. Completar-se…  Amor de mães e filhos, amor incondicional… 

Tudo é permitido em nome do amor?

 

Antecipar, nomear, ver e escutar o que ainda não está para que um dia possa advir, é o que Winnicott chamava de "a loucura materna das mães". Um processo fundamental que acontece nos primeiros meses de vida do bebê.

É necessário que a mãe entre em fusão emocional com seu bebê e se torna psiquicamente disponível para se identificar com ele e a partir dai, poder decifrar o seu choro em pedido. É a figura materna ( a mãe, ou quem ocupar essa função) que irá nomear, e dizer ao bebê que o que sente é fome, frio, sono, ou vontade de colo - transformando suas vivências em experiências. 

 

O laço com o outro, é condição fundamental para que um bebê possa vir a falar e desejar.  Alienar-se, fundir-se com o desejo da mãe. Lacan nomeia esse processo como alienação, uma operação que faz parte da constituição psíquica. Porém, para que esse sujeito possa ter entrada na linguagem, e falar em nome próprio, é necessário um gradativo movimento de separação.

 

“A mãe só é suficientemente boa se não o é em demasia, se os cuidados que ela dispensa à criança não a desviam de desejar enquanto mulher.” (Jacques - Alain Miller)

 

Todos sem exceção, estamos submetidos à falta. Durante a vida buscamos de forma incansável um objeto que dê conta de nos suprir, nos saciar, nos completar. A maternidade com toda sua carga cultural e simbólica é um grande desafio. As mulheres aprendem por via consciente e inconsciente, que sua falta pode ser completada com a chegada de um filho. É tentador para as mães colocarem seus filhos neste lugar - aquele que supre a falta. Mas essa é uma tarefa impossível, pois somos seres faltantes, fadados à incompletude.

 

São muitas as pequenas separações ao longo do desenvolvimento de uma criança. Desmame, desfralde, ida pra escola, volta da mãe para o trabalho. A mãe, com o tempo, DEVE poder se ausentar. É fundamental que haja uma falta, para que a criança possa internalizar a mãe, e assim ter a sua presença ainda que na ausência. Poder simbolizar. Vemos muito esse processo de simbolização nos jogos infantis de achar/esconder, famoso "fort - da" de Freud. 

 

Se não há ausência, se não há separação, tampouco há como se produzir uma inscrição simbólica. Ocupar lugar de sujeito é poder sair da posição apenas de objeto, de prolongamento do desejo materno, uma posição que aliena, psicotiza.

 

Para que ocorra essa separação é necessário a entrada de um terceiro. A figura paterna, um trabalho, ou algo que represente a lei,  que interdite a mãe. Ou seja, que a criança não seja o único objeto de desejo. É preciso que uma mãe seja castrada, ou em outras palavras, marcada pela falta, para conseguir separar de seu filho. 

 

Não há aprendizagem formal para se ensinar uma mãe o ofício da maternagem. A experiência de ser mãe é única para cada dupla mãe / filho. Longe de buscar oferecer respostas ou fechar a discussão, o tema em nossa roda teve como o objetivo por em palavras as dificuldades vivenciadas na experiência de ser mãe. Maternidade muitas vezes romantizada em nossa sociedade, mas que carrega assim como toda experiência de vida, muitas perdas.  

 

“Essas experiências antecedem à mulher sobre o que é um bebê e o que é uma mãe, partem do bebê que ela mesma foi um dia, das experiências nas quais pôde conviver com bebês e observar os cuidados que lhe eram reservados e, por fim, da necessidade de construir uma identidade própria diante desses diferentes marcos identificatórios.” (Vera Iaconelli)

 

Foi uma deliciosa noite de quinta feira, nossa roda dessa vez estava composta por mulheres, um grupo bastante participativo que pôde contribuir e enriquecer o debate com diferentes pontos de vista: sendo mães, ou sendo filhas, a maternidade nos atravessa a todos nós.

 

 

 

Referências:

 

CABASSU, G. Palavras em torno do berço. In: WANDERLEY, D. de B. (Org.). Salvador: Ágalma, 1997. (Coleção de Calças Curtas, 1).

 

IACONELLI, Vera. Mal-estar na maternidade: do infanticídio à função materna. 2013. Tese (Doutorado em Psicologia Social) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. doi:10.11606/T.47.2013.tde-07052013-102844. Acesso em: 2018-06-05.

 

LAGNADO, Grace (2018). Entre mãe e mulher, que criança? Biblioteca Virtual do Instituto Vox de Pesquisa em Psicanálise. Jornadas Seminário 4, A relação de Objeto, Jacques Lacan. São Paulo,23-24/02/2018.

 

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