A (in)completude do Amor

21 Sep 2018

 

Klimt - Adão e Eva 

 

Por Carla Belintani, Renata Cattacini e Isadora Louza 

No ano passado, em nosso primeiro debate, tivemos como tema “ O Despertar do Amor” que retratava um apaixonamento de um casal. Um ano depois, em comemoração ao nosso aniversário, retomamos o tema do Amor na perspectiva do amor maduro. Lacan dava alguns adjetivos ao amor, tais como amor narcísico, amor guerreiro, amor sublimação, amor masoquista, entre eles o amor paixão e o amor cortês. Escolhemos desta vez, recortes do filme “O Despertar de uma Paixão” - Direção: John Curran, 2006 - 

para retratar uma possível jornada do amor paixão para o amor cortês.
O longa levou quase seis anos para ser realizado, por iniciativa do ator Edward Norton que convidou a amiga Naomi Watts para atuar no filme e na produção. É uma adaptação do livro “O Véu Pintado” de Somerset Maugham. O escritor nasceu em 1874, na cidade de Paris e perdeu os pais quando ainda era uma criança. Foi criado pelo tio que tinha planos que o rapaz fosse padre. Estudou medicina para se dedicar secretamente à literatura. Seu primeiro livro foi publicado em 1907 e a partir de então pôde se dedicar exclusivamente à vida de escritor. O tema principal de sua obra é a imprevisibilidade da natureza humana.
Norton em uma entrevista sobre o filme, diz que após ler o livro, compreende que o escritor quis transmitir algo sobre o véu das ilusões. “Esse é o véu que nos cobre - as ilusões. Quando nos apaixonamos por alguém, nos apaixonamos pelo o que gostariamos de ser ou o que desejaríamos que o outro fosse”, diz o ator. Freud já dizia sobre as escolhas de objeto amoroso na Introdução ao narcisismo (1914); amamos o que somos , o que fomos, o que gostariamos de ser, e de alguém que foi parte de nós mesmos (escolha narcísica). Podemos ter como referência os modelos maternos e paternos, isto,é, amamos a mulher que alimenta ou homem que protege (escolha anaclítica).
No filme a atuação dos atores são viscerais e de extrema dedicação, além de demonstrarem muito carisma em seus papéis. Os personagens de início se mantém distantes. Kitty, interpretada por Naomi, possui uma vida de uma jovem mimada, desinteressada e atraente. Watss, personagem de Norton, é um biólogo de classe média que se apaixona por Kitty. Eles se casam rapidamente e Kitty cede apenas por convenções sociais da época e seu desentendimento com a mãe. Se mudam para a China e no novo país Kitty se apaixona por Charlie, interpretado por Liev Schrieber.
Walter descobre a traição da esposa e indignado aceita uma proposta de trabalho em um hospital numa cidade infestada de cólera. Do nosso ponto de vista, não parece ser por acaso que os personagens migram para uma região com esta doença infecciosa e epidêmica que atinge zonas de saneamento mais precárias. Os personagens estão invadidos por sentimentos violentos de raiva, ira em uma tentativa de vingança e punições pelo queda dos ideais. Nesse momento se inicia a travessia do casal, onde as expectativas se rompem e cada personagem reflete sobre suas idealizações do matrimônio. O contato com o sofrimento, nos faz pensar na possível elaboração do luto do amor idealizado. Pensamos que a história do filme seria sobre o confronto entre duas pessoas quando esse véu das idealizações cai e se transforma em um amor atravessado pela falta.

“Às vezes a maior jornada é a distância entre duas pessoas.” Somerset Maugham

O intuito de um debate com um filme como disparador para reflexões e questões, não é uma aplicação da Psicanálise desprezando o enigma que a Arte conserva em uma construção sempre singular. A proposta é partirmos de inquietações que o filme nos despertou sobre o complexo tema do Amor: Seria o amor a ilusão da felicidade como sinônimo de plenitude? Lacan referindo-se à relação intrínseca entre amor e verdade, afirma que ambos têm uma estrutura de ficção e, como tais, são artifícios com a função de criar uma tela protetora diante dos enigmas sem decifração. As fantasias do amor quebram o limite entre verdade e mentira. Por que amo? Por que sou amado? O que preciso ser para ser amado? O que o outro quer de mim? Sempre somos amados por algo que nunca imaginamos.
O mito do amor paixão, sinônimo de se unir e se confundir com o amado, nesta relação se nega a falta, já que se supõe que o outro trará a completude e vice versa no campo das idealizações. A falta na psicanálise, faz parte da constituição subjetiva do psiquismo. É a partir dela que se faz advir o sujeito do desejo, essa busca constante por algo mais que nunca é saciado por completo. Continuamos seguindo desejando por toda a vida, é isso que nos faz caminhar e nos movimenta. Podemos ter a ilusão de completude mas não quer dizer que somos completos. O ser que o amor se dirige é uma fantasia, uma ficção. Nesse sentido “Amar é dar o que não se tem” - para Lacan o amor cortês é o único que expressa o verdadeiro amor. Nesta relação a troca de amor seria o nada por nada, o sujeito se sacrifica para além daquilo que tem. Sendo assim, o amor cortês se inscreve no regime da frustração.
Pudemos notar no filme um casal que a partir do contato com a falta, criam novos amores, novas paixões, novas fantasias, novas jornadas...

 

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