Do Avesso

 "Exploracion de las fuentes del rio Orinoco" Remedios Varo, 1960

 

O carro já estava lá. Ela apenas entrou e puxou a porta. Com as pernas recolhidas e trançadas em nó deixou-se conduzir. Passageira. Ela o cumprimentou? Difícil dizer. Era um daqueles dias em que o volume do pensamento suplanta os ruídos concretos, a própria voz incluída. Difusa é a fronteira entre o sopro e o apagar da vela.
A cabeça apoiada no vidro da janela, ela não sabe por quanto tempo permaneceu descascando os dedos com os dentes, um lembrete de que existia. Era como se cada pedacinho de carne devorado pudesse contribuir para a engorda de sua alma, às custas do destrinchamento de seu corpo.
Nessa retroalimentação existencial, sua vida passada em circuito. Dá-se conta da dinâmica de seus afetos. Pequenos movimentos para fora impulsionando profundos mergulhos para dentro.
Naqueles mergulhos tudo o que não fosse interno era irritante. A música do rádio e o toque da roupa no corpo. O interno inflando a cada respiração, crescendo, superando o externo até todos os seus sentidos se inverterem. Suas entranhas inchadas, esmagando a realidade. Virada do avesso. Voando nas nuvens de um céu entranhado.
E hoje era um desses dias. Primeiro foram os sons da cidade e as vozes do entorno se misturando. Não é que ela não escutasse o marido e o ronco dos carros, mas o barulho de fora não mais entrava em contato com o ouvido de dentro. Reverberação, ruídos aquáticos. Foi começando a se afogar em seus próprios tons graves, abafados por uma dormência diabólica.
Apesar de alimentada de si mesma lembra-se que esqueceu de almoçar e está
com fome. De comida.
"Estou com fome".
As palavras saíram?
"Estou com fome", repete.
Repetiu mesmo?
- Eu já disse isso?, pergunta.
- Isso o que?, ele responde.
- Que estou com fome.
- Não. Só disse agora.
Ela repete para se assegurar do som da própria voz e a estatura de seu desejo.
- Estou com fome. Tem certeza que eu já não falei?
Ele a observa de relance, mas ela não percebe. Em seguida sugere uma parada naquele restaurante. Não faz mal, ainda há tempo. Não custa nada. Ela não se opõe, tampouco concorda. Deixa-se guiar, alheia ao caminho.
Ela não está de todo só, por companheiro ela toma o medo. Um medo que não é de ladrão, falência ou câncer. É um arremedo de morte. Micro fraturas num balão de gás fazem ventania.
Então ela lembra das bonecas de pano costuradas pela vó na Singer enferrujada. Singer matriarca de uma extensa linhagem de bonecas. Todas fêmeas. Bonecas de enfeitar estante e que o irmão dava pro cachorro morder. Bonecas de pano sem estofo.
A vó revirava as bonecas do avesso pra rechear de estopa. Mas antes de engolirem o recheio elas ficavam ali, invertidas, obscenas. E ela-menina sentada observando o processo em obediente resignação. Imaginava os botões ao contrário, lacrimejando lágrimas reversas que não podem ser enxugadas.
Aperta os olhos até renascerem por dentro, mas eles não enxergam fígado, baço ou duodeno. Nem o útero, seu órgão maior, eles enxergam. Seus olhos de dentro testemunham o desamparo, mas não depõem sobre seu mundo interno inabitado por palavras, preenchido apenas por sensações arcaicas, de um tempo que prescindia da fala.
O restaurante está vazio, talvez pelo correr do dia, mas os mil decibéis do silêncio são insuportáveis.
De modo automático caminha para a mesa de canto, ela queria mesmo era
grudar na parede.
Repassa de novo a salada completa. É tomate seco ou cereja?
- ... Você quer ou não?
- O que?
- Vinho. Quer uma taça?
Ela quer?
- Claro. Desculpa.
O garçom verte o vinho num barulhinho gostoso. Ela fecha os olhos para degustar. O barulho, não o vinho. O marido a observa.
A expectativa da acidez arranhando o que já está magoado não lhe parece convidativa. Num dia como este ela precisa de doçura. Por isso não toca na taça, mas repara no vermelho lavado, não consegue desgrudar o olhar.
Tudo é árido. Ela conclui que só vai conseguir engolir um...
- ... sorvete.
- Como é?
- Só vou querer um sorvete.
- Você não almoçou. Não comeu até agora e sabe que lá o jantar sai tarde. Come
alguma coisa. Tão magra.
Magra? Seus ossos só ela sabia quantas toneladas pesavam.
Não há energia para contestar e logo chega o bife com arroz e batatas fritas. O bife mal passado fede a desgraça. Cheiro nauseante de lembrança e sangue. Se ao menos não estivesse tão exausta. A noite ela passou em claro, como costuma acontecer nestas ocasiões. A noite é hostil e destranca a gaiola das lembranças. Ela quer esquecer.
O tio, furioso, gritava para quem quisesse ouvir: “A menina é maluca!”
Os adultos, em confabulação, contemporizavam:
"Deve ter sido impressão. O tio é brincalhão e ela confundiu."
A prima e a irmã olhando pro chão. Como se não fosse com elas. Como se não fosse com todas.
“Criança imagina cada coisa. Se a gente der ouvidos...”
Ela era o assunto, mas não a voz. Falavam dela e por ela.
- ... você ouviu?
- Não. Pode repetir?
Se há impaciência na fala do marido ela não nota, mesmo assim sente a mordida da culpa.
- Vamos andando até o estacionamento, ele repete.
- Por que?
- Para buscar o carro.
Nas duas esquinas que separam o restaurante do estacionamento cada passo custa quilômetros. Seu esforço, inflacionado, exigindo mais e mais energia. Energia que ela não sabe de onde extrair.
Arrastando os pés, acaba por tropeçar num desnível da calçada e seus braços, por reflexo, esbarram na lixeira, revirando seu conteúdo. Em meio a latas vazias, ela congela. Espectadora da bagunça que criou é tomada de indiferença, convicta de que tudo se reordenaria independentemente de sua colaboração.
Ele toma seu braço:
- Todo ano é igual. Sempre que vamos lá você fica estranha. Vem. É logo ali.
E ela vai. O logo ali é tão longe.
O tio morava na rua de cima e as meninas brincavam lá. Até virarem brinquedo.
Uma por vez ele levava pro depósito. “Shhhhh, vamos brincar de esconder.”
Depois da denúncia inútil o tio até deu um tempo, mas foi só o seio se pronunciar contra a blusa dela para o tio se insinuar de novo. Ele tocou seu corpo como um pedaço de carne na absurda crença de que bater o bife poderia amaciá-lo, para o bem do próprio bife, claro. Quando o tio terminou ela sentiu as cócegas do sangue deslizando pela coxa, tingindo o sêmen numa mistura alaranjada com cheiro de açougue. Ela espalhada na cama, disforme como bife batido. Lavou o sangue e o sêmen, que escorreram junto com a vergonha pelo ralo.
Esfregou tudo até se acostumar com a dor. Ela podia viver com a dor.
O trajeto até a vó dura dois CDs.
No velho sobrado a cena tampouco era nova. Todo ano, no aniversário da matriarca, ela é das poucas com um companheiro. E a única sem filhos. Os raros homens se entulham na televisão acompanhando futebol ou no jardim, discutindo futebol. Cerveja em quaisquer das hipóteses.
As mulheres se espalham em afazeres, num barulho ensaiado para evitar o desconforto do silêncio. A vó, a mãe, as irmãs. As vizinhas e filhas. As tias, as tias das tias e ela. Todas recheadas da mesma estopa.
Na estante as bonecas surradas disfarçam o pano rasgado pela mordida do
cachorro.

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