Travessia do Sertão

17 May 2019

“É de sonho e de pó

O destino de um só

Feito eu perdido em pensamentos

Sobre o meu cavalo

Me disseram porém

Que eu viesse aqui

Prá pedir de romaria e prece

Paz nos desaventos”

 

Música Romaria -

Renato Teixeira

 

 

 

No mês de maio fiz uma peregrinação pelo sertão de Minas Gerais, percorrendo os caminhos que o escritor João Guimarães Rosa realizou cavalgando na companhia de oito vaqueiros, durante uma boiada em maio de 1952.

    Peregrinar é uma palavra de cunho religioso, uma jornada realizada por um devoto a um lugar considerado sagrado. “Viajar por terras estranhas. Andar longamente por lugares vários e distantes. Ir em romaria.”

As obras de Guimarães, em especial Grande Sertão: Veredas, me fez sonhar com o sertão. Um lugar onírico de elaboração de lutos e de ressignificar o viver por meio da narrativa. Um livro que de certa forma adquiriu para mim um estatuto único, que convoca uma leitura circular, um convite a diversas releituras. Como em um processo de análise, se conta diversas vezes a mesma história porém por travessias singulares em busca de novas significações. Conversando com uma colega psicanalista sobre as obras de Guimarães entre outros escritores, adentramos sobre o efeito transformador da literatura. Para mim, a literatura e a teoria psicanalítica caminham juntas. O que faz uma obra literária atrair tantos leitores? São as experiências humanas, os sofrimentos, as alegrias, as descobertas que estão relatadas ali, nos romances, nos devaneios de cada escritor que remete à condição humana, “aos crespos do homem” citando Guimarães.

A definição de sertão, seria uma ida para o interior da cidade, lugar pouco habitado. “Lugar interior”, “terra entre terras”, “local distante do mar”. Poderia ser uma analogia do psiquismo? Interior que se localiza ou existe dentro de nós? Eram questões que me faziam refletir. Que sertão é esse relatado por Guimarães? Uma região sujeita a secas, mas que no próprio título do livro remete às veredas - um alento de vegetação e água no meio da seca do sertão. Seria o sertão um lugar? Um colega peregrino geógrafo me contou que um lugar é definido por uma porção do espaço geográfico dotada de significados particulares e relações humanas. Que possui uma significação e, mais do que isso, causa de afeto e percepção. Na linguagem poética de Guimarães, o “Sertão é o sozinho”; “Sertão: é dentro da gente”; “O sertão é sem lugar”; “Sertão é quando menos se espera.”; “Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o lugar.”

Voltando à travessia - iniciamos por Andrequicé (cidade em que Manuelzão morou - um dos vaqueiros da boiada), Buritizinho, Morro da Garça (cenário protagonista do conto “Recado do Morro”), Fazenda Recanto do Morro, Curvelo, Fazenda Paulista e finalizando em Cordisburgo - cidade natal do escritor. Foram 180km percorridos em seis dias de caminhada.

Travessia “é um ato ou efeito de atravessar uma região, um continente, um mar etc.; Longo trecho de caminho desabitado”. O andarilho é aquele que vaga por muitos lugares. Percorre travessias. Escreve Guimarães:

“Eu atravesso as coisas - e no meio da travessia não vejo! só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou: viver não é muito perigoso? Carece de ter coragem.”

Foi assim que adentrei nos caminhos do sertão. Caminhando com coragem e sem rumo ao desconhecido. Não sabia como meu corpo iria reagir a tamanha distância e esforço físico. Surpreendentemente meu corpo reagiu bem como se já conhecesse essas bifurcações. A mente que adquiriu um novo estatuto. Sair da cidade de São Paulo e da rotina do fazer. Ser o sertão, sentir a passagem do tempo de outra forma, os dias que passavam manso, as horas que percorrem lentamente o círculo do relógio. Observar a natureza, escutar as histórias dos moradores e dos outros peregrinos, o caminhar junto e ao mesmo tempo no sozinho. “O caminhar em grupo permite o sonhar junto ao mesmo tempo que é solitário.” “A colheita é comum mas o capinar é sozinho.”

Caminhar, “sinônimo de marchar, percorrer um caminho. Progredir, seguir, andar. Movimentar-se, andando, em direção a algum lugar; dirigir-se a, ir. Avançar superando fases; deslanchar, evoluir”. Penso nos primórdios do psiquismo, no corpo de um bebê recém nascido, que gradativamente adquire sustentação por meio de movimentos, rotações de eixos para constituir um corpo que forma um Eu. Processo esse que se atualiza por toda uma vida. Estamos em constante transformação, do nosso corpo e do nosso psiquismo. “A marcha motora põe em movimento a subjetividade, a elaboração imaginativa da experiência e a capacidade de concepção.”

    Haveria relação entre o caminhar e o sonhar? No capítulo “Andarilhos e sonhadores” de Decio Gurfinkel, relata de maneira sensível essa poética na descrição do caminhar-sonhar, “se perder” e “se achar” - alternância entre a perda da forma e dos domínios do Eu - viagem ao informe - e, o re-encontro do si mesmo. E, no horizonte deste interjogo, vislumbramos uma brincadeira de esconde-esconde.” “Caminhar, abrir portas para o devaneio. Desejo de se perder, ser anônimo.”  “O sonhar e o caminhar: há no sonhar uma ação simbólica - representa - ação - que põe em movimento o desejo e os anseios do si-mesmo, e que deve ser tomada como um contraponto do princípio de inação que rege o sonho.” “Lançar-se em uma viagem para um não lugar: este é o gesto do sonho.”

Essa é a viagem oferecida pelo “Caminhos de Rosa” que permite os peregrinos  sonharem seu próprio sertão, oferecendo uma estrutura de apoio essencial - um ambiente suficientemente bom para que cada peregrino se embale no seu caminhar.

Esse foi o sertão que sonhei, me lancei e vivi. Um convite para novas travessia e aberturas para o imprevisível.

 

Referências:

 

Dicionário Michaelis online.

GURFINKEL, D (2008). Sonhar, dormir e psicanalisar: viagens ao informe. São Paulo, Editora Escuta.

ROSA, João Guimarães (1988). Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira.

 

 

 

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