Tempos de acolhimento: como fica o luto no cenário atual?

                                                                                                                                         (Papilla Estelar, Remédios Varo)

 

Muito tem se falado sobre as dificuldades referentes às despedidas e rituais, culturais e pessoais, que as pessoas estão impedidas de realizar no atual cenário da pandemia do coronavírus. Trata-se de um momento singular que convoca o mundo a pensar novas alternativas para as questões que estão surgindo com a chegada da Pandemia.

Entre muitos pontos passíveis de discussão, a questão do luto é um elemento fundamental de trabalho para A Casa Frida, que tem como eixos fundamentais a psicanálise, a arte e o luto.
Sabemos que o luto está longe de ser reduzido à morte física. Há pequenos lutos que fazemos todos os dias e em tempos de pandemia isso se apresenta de uma outra forma. As perdas e as faltas não cessam, podem causar uma dose de mal estar, mas não só isso, também nos movimentam e muito. É um convite para o trabalho interno, uma possibilidade de realocar, o que foi desagregado, pela via da elaboração.

Elaborar um luto não se trata de racionalizá-lo a ponto de estar tão bem resolvido que não produz mais seus efeitos. Elaborar um luto envolve uma abertura, um caminho de fala, um lugar para aquilo que tende a ficar fora (e às vezes fica mesmo). É o real que invade o sujeito e precisa de contorno, um contorno possível pela via da palavra, da nomeação. Um processo que deixa um resto, que movimenta o espírito, o psiquismo, a fala, as associações. É um processo, mais de vida do que de morte, que não cessa enquanto estivermos vivos. 
É um movimento que precisa estar em curso, é um vai e volta que merece lugar e não encontrar esse espaço nos ritos conhecidos e estabelecidos até hoje não significa que o luto esteja suspenso. Os rituais presenciais é que estão, mas não o luto. 

Desde o início da Pandemia fomos convocados a construir novas alternativas para estarmos juntos, para executarmos nossos trabalhos e também para os novos rituais de despedida. É a construção de algo novo que está em curso. Nada se encontra pronto nesse sentido, mas algo tem se constituído em vários campos com a melhor das intenções. Essas novas alternativas têm sido partilhadas de forma tão bonita e rica que algo dessa falta nos levou a uma construção coletiva. Os rituais têm seu lugar nesse processo, pois são rituais de despedidas tão importantes para o processo de luto e luta que se inicia no momento de uma perda. 

A despeito do isolamento, o coletivo presente de outra forma, agora mais virtual, faz sua função. As religiões e seus rituais nesses momentos também têm encontrado suas alternativas. É importante que seja possível recorrer a esses recursos. E esses rituais, assim como a presença do outro nesse processo, formam uma espécie de rede, que ampara o sujeito em seu processo de luto. Outra ponta dessa rede são os espaços terapêuticos para esse processo de elaboração. Existem trabalhos que podem ser feitos em grupo ou no formato individual, assim como os oferecidos pela A Casa Frida, mas também em tantos outros lugares. 

É nesse encontro com a perda que podemos elaborar o que se perdeu. O processo de elaboração envolve um trabalho psíquico, uma passagem simbólica daquele (ou daquilo) que se foi. Trata-se de uma operação singular e individual do lugar que aquele objeto perdido ocupava e agora passará a ocupar, a partir de dentro e não mais de fora. Ele ganha nova morada, agora interna.

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