Ritual do luto em tempos de pandemia: Costurando Despedidas

10 Jun 2020

 

  Diante de tantas questões que o momento atual apresenta, nos afligimos com o luto e seus rituais, tão impactados com o curso da pandemia. A partir das inquietações que tanto nos movimentam, nos articulamos para pensar alternativas aos novos impasses.

  Considerando nosso eixo fundamental, arte, psicanálise e luto, uma via criativa ganhou contornos. Numa costura conjunta, enlaçamos nossas perdas e histórias num texto ficcional e o resultado apresentamos a vocês no blog.

  Assim, a incubação de uma ideia ganhou forma e deu vida ao novo projeto do A Casa Frida, Ritual do luto: costurando despedidas.

  Abaixo dividiremos com vocês nossa tessitura:

 

 "Ainda lembro do cheirinho do quarto dela. Como ela gostava daquela blusa florida! Nenhuma outra roupa poderia representar melhor o humor solar e o alto astral da Dona Nedy. Mas talvez Dona Haydee fosse ainda mais amante das flores do que ela. Afinal, seu programa preferido era ir até Holambra na primavera. Sua alegria se multiplicava em estar lá, sentindo o clima ameno primaveril e o aroma das tulipas, dos girassóis. Em sua mala de viagem carregava o essencial, mas nunca esquecendo de suas agulhas de crochê, fiéis companheiras de tardes. Enquanto fazia seu crochê, vira e mexe um pensamento lhe passava: como é muito habilidosa com as mãos e se aprendesse um novo instrumento musical? Um grande entendido deste assunto era o Senhor Luiz, que estava sempre com seu acordeom, entre melodias, sensível aos sons e aos tons musicais. Tocar e ouvir era sua vida.

 Certo dia, estava em sua casa de praia em Itanhaem, onde passou sua infância e viu uma mulher muito bonita e atraente de mini saia. Ela sorria e conversava com todos na rua. Ah como ela era amigável, pensou. Sua energia boa e contagiante até o inspirou a compor uma música. E lhe veio à mente uma canção à moda francesa, que havia lhe marcado uma passagem sua por Paris, onde sentado num café sentia a leveza de viver o “aqui e agora”, sem mais nada lhe preocupar. Transportado para aquele momento, lembrou-se dos brincos de uma pessoa querida que lhe havia marcado. Noemia.

 Nesse momento foi surpreendido pelo Sr Leonel que estava mais uma vez mexendo no lixo, indignado com tantas coisas de qualidade que as pessoas “deitavam” fora. Era um colecionador de coisas inúteis que para ele tinham grande importância. Conversava com todas as pessoas da rua, sempre gentil, acompanhado por sua boina inseparável. Tinha um apetite tão admirável que as mães de meninas magrinhas com dificuldade em se alimentar marcavam almoços com ele e a fome pela vida ressurgia. É curioso como a vida se entrelaça com a comida. Em Cascais, no Brasil ou no resto do mundo os alimentos parecem nutrir as melhores lembranças e afetos. Dona Carolina sabia muito bem disso, tinha como seu grande amigo o livro de receitas. No sítio, gostava de cozinhar aos finais de semana para a família. Acordava de manhã e procurava ingredientes em sua própria horta, era um verdadeiro ritual o preparo do alimento. Preparava a mesa, chamava todos a se sentar, e ao oferecer a eles o almoço de domingo oferecia em verdade todo seu amor.

  Dona Carolina, Noemia, Seu Leonel e Seu Luiz, Dona Nedy, Dona Haydee, Cecilia, fecho os olhos e visito estas lembranças, ou eu é que sou visitada por elas? Vou puxando estes fios, desconstruo a trama, teço novamente. Entrelaçados. Sim, a dor de alguém repercute em mim e relembra que há sempre um fio que nos une aos outros.”

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