Viva, a memória viva.

19 Sep 2020

“A memória é um lugar mágico, onde coexistem o antes e o agora, a ausência e a proximidade, a causa e o efeito, os vivos e os mortos. Por meio dela, os seres sem ubiquidade (onipresença) e sem longevidade, que nós somos, guardam lado a lado todos os momentos e todos os lugares, e se elevam, por um instante, para além de si mesmos.”

Pierre Bergounioux apud Pontalis

 

 O filme "Viva, a vida é uma festa" retrata a experiência traumática vivida por Amélia, tataravó da família, que se sente abandonada pelo marido Hector, musicista. Entre diversas versões sobre a história do casal, Hector se torna objeto de ódio e precisa ser esquecido. O ódio por ele era expressado (deslocado) na aversão à música, tornando a família Rivera “na única família mexicana que não tinha acesso à música”. 

Enquanto a família vivia em uma prisão de memória, o passado era carcereiro, invadido pelo evento traumático que não podia ser lembrado. Esta tradição era passada de geração em geração e o ofício de sapateiro se torna o padrão na família. Miguel, o menino mais novo da família, era encantado por música e tinha como grande inspiração o músico de La Cruz. 

 

“Um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também.”

 Jorge Luis Borges. 

 

O passado voltava indefinidamente, assim como o paciente em uma sessão de análise procura algo de si em suas lembranças. E o que de fato se procura? Que lugar é esse de retorno?

 

A foto de Hector no altar dos mortos estava fragmentada, um homem sem cabeça. Palavras sem rosto, ditas por quem? A memória tem algo do evocar e, de certa forma, não é compartilhada, já que cada um constrói sua própria lembrança. No caso de Miguel, não havia a possibilidade de construção de uma memória singular subjetiva, mas de uma conservação imposta de um passado traumático. Ao retornar a este passado, Miguel inicia uma saga maldita em que corre o risco de permanecer no mundo dos mortos. É preciso resgatar os fantasmas para romper as fronteiras da transgeracionalidade. 

    Ao ingressar no mundo dos mortos e realizar a difícil travessia do rio Acheronta, tem início o processo simbólico de luto do tataravô. Seu único companheiro é Dante, seu cão que o acompanha no submundo. Por meio dessa jornada, Miguel ressignifica a história que sempre escutou na família. E, ao transgredir as normas impostas por ela, quebra o padrão de pensamento em bloco, que exclui qualquer tipo de alteridade e capacidade de sonhar. 

 

O filme faz pensar em algumas questões:

 

Como ressignificar o maldito familiar?

Poderia ser um sonho de Miguel essa travessia pelo reino dos mortos? 

Memória e sonho poderiam ser comparáveis?

Trabalho do sonho e trabalho do luto operam simultaneamente? 

Qual o enigma de um sonho? 

O sonhar é a possibilidade de resgate do que está recalcado? 

 

O passado está calcado, calçado no medo do abandono. O sapato é o que faz caminhar seguro para frente, sem se olhar para trás. Ao dormir, descalçamos os pensamentos lógicos, acessamos memórias fragmentadas e nos permitimos a entrega ao ritmo do que não é controlável ou governável. O encontro com pensamentos inconscientes abre a possibilidade de construir narrativas e acessar o que está além das fronteiras do concreto. Qual a representação que Miguel fazia dessa história? Representação é uma palavra herdada da filosofia. Uma palavra ambígua que evoca ao mesmo tempo presença e ausência - “uma realidade ausente que pretende representar”. O sonho reúne essas duas funções de presença e ausência. No sonho, é possível garantir a presença de fantasmas e, quando se desperta, eles já não existem mais. Miguel ilumina o mundo dos mortos, que é colorido, lúdico e com mais vida do que a realidade. Ao trazer cor ao que está no submundo, decifra mensagens de seu mundo interno. O que era apenas sonho se volta ao mundo dos vivos ao despertar. É por meio da fantasia que Miguel ressignifica o mito familiar. Neste sonho, encontra Frida Kahlo, que é a primeira a dar a benção dizendo “Você tem espírito de artista”. E é neste lugar incerto, entre fantasmas e vivos, que Miguel compõe sua própria canção, decifrando o enigma transgeracional do “horror à música”, que seu tataravô representa. 

Na busca pela verdade escondida, Miguel ingressa em uma espécie de cripta que é uma caverna subterrânea. Neste momento do filme, está acompanhado pelo fantasma do seu tataravô Hector e consegue dar um novo sentido à história. 

Ao voltar ao mundo dos vivos (ao acordar?), Miguel reencontra sua bisavó Coco e canta a antiga canção que seu pai cantava para ela: “Lembre-se de mim… só posso existir com seu amor…  na sua mente estou vivo… unidos em nossa canção… Se fechar seus olhos e deixar a música tocar… Manterá nosso amor vivo, eu nunca desaparecerei…”.

 

Coco reage à vida ao escutar esta canção, entregando a Miguel a parte faltante da foto do pai. A cabeça é unida ao corpo, enquanto a música desempenha a função de integração, uma possibilidade de elaboração de lutos.

 

Seria esse o legado após a perda de uma pessoa querida? Resgatar a melodia criada no vínculo por meio das memórias? Seria, então, essa a função da análise? Como diria Pontalis em seu belo livro de fragmentos, “À margem dos dias”, a função de um analista seria o de caminhar em direção ao desconhecido, propiciar uma escuta de si em que as palavras e as memórias se tornam vivas. 

 

 

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