Ciclo de debates sobre o luto. Filme "A Partida"

 

A Partida: Reflexões 

 

                                                                       "Deixamos Bernardo em sua sepultura

                                                                         De tarde o deserto já estava em nós” 

                                                                                        Manoel de Barros

              

  O filme A Partida, do diretor japonês Yôjirô Takita, é um convite a uma travessia pelo universo onírico da música e da fotografia. Através da arte oferece sustentação para acolher os delicados sentimentos envolvidos no trabalho do luto. 

 

  O luto envolve a dor da perda e exige trabalho psíquico para a sua elaboração. A morte e a vida estão entrelaçadas fora e dentro de nós, e o filme favorece um mergulho estético entre os acordes da música e das imagens, e mesmo após o seu final ainda sentimos ressoar a sua envolvente e profunda melodia. O filme foi ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009 e foi inspirado na biografia de Aoki Shinmon Coffinman, que narra em seu diário de agente mortuário budista o seu trabalho com os mortos. Y. Takita cria assim um filme tocante e envolvente.                                          

 

  Daigo Kobayashi é um violoncelista da orquestra de Tokyo que perde seu emprego após sua dissolução: neste momento inicia a primeira "Partida" que ocorre no filme. O músico parte com a esposa para a sua cidade natal e vende o seu violoncelo pela dificuldade financeira. Isso lhe traz alívio e revela assim a trama de emoções que o ligam a música e que vamos aos poucos conhecer. Vai morar no interior na casa que a mãe falecida havia lhe deixado de herança e inicia também uma partida para o seu interior, sua infância  e lembranças. Daigo deixa a sua vida e a música em Tokyo e procura um emprego na cidade natal. A oferta de emprego surge a partir de um equívoco de comunicação no anúncio do jornal que supôs ser de uma agência de viagem e no entanto, tratava do preparo dos mortos em um ritual tradicional. A função oferecida no anúncio é ser um nôkanshi, um agente mortuário que limpa, prepara, maquia e coloca o morto no caixão na presença da família em um ritual de despedida.

 

  O encontro com o patrão que faz o trabalho se inicia de forma difícil, sendo o primeiro trabalho com um corpo já em estado de decomposição, o que deixa o impregnado do cheiro  da morte. Este ofício no Japão não é bem visto e Daigo esconde seu trabalho da esposa e sente a repulsa dos amigos. Porém, a maneira do patrão executar o ritual  o surpreende e o comove. Percebe a elegância dos gestos solenes do nôkanshi, a delicadeza do respeito e a demonstração de cuidado e carinho. Ele oferece assim, com os seus gestos uma sustentação sem palavras, como um maestro e expressar sentimentos que tocam os familiares do morto.  No último encontro, no momento de despedida do morto, o nôkanshi  faz uma maquiagem que traz novamente a beleza da lembrança daquela pessoa em vida,  e auxilia a despedida neste momento tão difícil. O ritual ajuda a conter e sustentar as dores e os dramas familiares.

 

  Daigo encontra o seu violoncelo da infância, lembrança de sua ligação com o pai que partiu quando ele tinha 6 anos de idade e do qual não conseguia, nas suas lembranças, ver o rosto. Recorda de um momento importante, quando trocaram pedras - antigamente, antes da escrita, as pessoas davam pedras umas às outras em sinal de afeto. A sua pedra estava em seu violoncelo, e nesta noite após este primeiro trabalho e no difícil primeiro encontro com a morte, toca para dar vazão a seus sentimentos, transformando em arte o que o assombra, e podemos começar a escutar o som da falta de seu pai entrelaçado a música.  No filme Daigo parte para um encontro consigo mesmo e neste processo reencontra as tramas da sua história. A importância que descobre neste novo trabalho dá um novo sentido à sua vida. Mesmo quando a esposa Mika descobre e vai embora por não aceitar este trabalho tão mal considerado,  Daigo recorda suas experiencias com os rituais e não desiste.

 

  O filme a Partida, abarca as muitas perdas, lutos, e desamparo que vivemos em nosso processo constitutivo humano e nas experiências traumáticas que excedem a nossa capacidade representacional e simbólica.

 

  A separação dos pais que no caso do personagem foi traumática, se reflete no seu sentimento de fracasso pessoal e sensação de vazio. Nesta travessia ele vai se transformando e integrando as suas experiências vividas. A esposa retorna e revela que ele será pai, e novamente a vida e a morte se entrelaçam. Após assistir o ritual que Daigo realiza com uma amiga da família, a dona da casa de banhos que o via chorar na infância pela dor da perda do pai, a esposa percebe a delicadeza, beleza e nobreza dos gestos do marido e passa a aceitar e compreender seu trabalho. A convivência com o patrão e a secretaria do trabalho oferece a Daigo a família perdida... -  É comovedora a cena em que ele agasalha o patrão que dorme e nos faz perceber seu sentimento de falta do pai perdido. 

 

  Um dia recebe a notícia da morte de seu pai. Amparado pela esposa, apesar da resistência inicial, parte para se despedir do pai, para o reencontro com o pai agora morto mas sempre presente nos acordes da sua música. Desta vez está na cena como a família que assiste, mas quando vê a inabilidade dos agentes que fariam o serviço, os tira da situação e resolve ele mesmo realizar o ritual de preparo do corpo. Quando encontra a pedra que havia dado ao pai junto ao corpo, se restabelece uma ligação perdida, o pai que havia lhe abandonado estava sendo reencontrado. A pedra simbolizava uma ligação com o pai que ele julgava perdida, e através daquela pedra o pai narrava em seu silêncio mortífero a presença do filho dentro dele apesar da distância. O rosto do pai pôde finalmente ser reencontrado na sua memória antes repleta do vazio deixado pela dor emudecida.

 

  Em suas lembranças não conseguia recuperar do rosto do pai. Nesta cena tocante em que prepara o pai para a partida, prepara também a si mesmo como filho e sob os acordes da música ficamos comovidos.

 

 Este filme através da delicadeza, criatividade e sensibilidade do diretor em tratar de temas tão difíceis, nos oferece em sua poética elementos fundamentais para a jornada interna e para, como diz o poeta Manoel de Barros, nos tirar do deserto e auxiliar no trabalho de elaboração do luto.

 

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