Rainha de Copas


O filme Rainha de Copas (2019) é uma produção sueca-dinamarquesa e um tratado sobre grandes temas da psicanálise, tais como a passagem da adolescência para a vida adulta, o processo de envelhecimento e a teoria do trauma.


Dirigido por May el-Toukhy, retrata a história de Anne (Trine Dyrholm), uma respeitada advogada dos direitos da criança e do adolescente que tem um casamento estável e duas filhas gêmeas. Ao saber da chegada do enteado adolescente e problemático, aceita quase sem nenhuma hesitação o fato de que um novo elemento será inserido em sua dinâmica familiar. Ela não apenas compreende a necessidade de atenção e cuidado do jovem Gustav (Gustav Lindh), como busca ativamente integrá-lo ao novo ambiente. Gustav já havia sido abandonado por seu pai na separação com sua mãe e parece tentar uma reaproximação após longos períodos de conflito baseado em burlar regras escolares. Anne recebe e confidencia segredos de Gustav e ao se defrontar com sua sexualidade juvenil, desperta e instiga sua relação com o próprio corpo, se depara com os efeitos do tempo e o processo de envelhecimento. Anne instaura a partir daí uma aproximação íntima e sexual com o jovem, que reage de forma passiva aos seus investimentos.


Gustav representa a ambivalência dos sentimentos humanos, amor e ódio estão presentes na relação com a madrasta. Ao mesmo tempo em que expressa sua raiva e busca por seus direitos ao ato de abuso, sente culpa por amá-la e se depara com a descoberta terrível da impunidade. Situação comum em casos de abuso de menores, em que o algoz se transforma em vítima. Gustav tem um contato cruel com a natureza humana dos afetos. Eros e Tanatos, vida e morte, leis existem para nos defender dos impulsos humanos mais primitivos, mas e se elas não operam para nos proteger?


O título e cenas do filme fazem uma menção direta ao livro “Alice no país das maravilhas”, escrita por Lewis Carrol em 1865. O autor era conhecido por apreciar e admirar crianças, hoje em dia manifestado por possíveis traços pedófilos. O livro conta a história de uma menina chamada Alice que cai numa toca de coelho que a transporta para um lugar fantástico povoado por criaturas peculiares e antropomórficas, revelando uma lógica do absurdo. Poderia ser equivalente a metáfora do crescimento, o absurdo do mundo adulto e a incoerência das regras e leis. Alice segue o coelho branco que está sempre com pressa e atrasado - podendo representar em duplo sentido a passagem do tempo, o envelhecimento de Anne, a passagem para a vida adulta de Gustav e o caminho do desejo que sempre escapa, revelando sua ambiguidade. Assim, Gustav penetra em uma trama que jamais poderia imaginar, a relação com o interdito, a história de abuso e amor com a madrasta.


Anne é a Rainha de Copas, personagem de Carroll que aprisiona os personagens no tempo. Na impossibilidade de reter o tempo com Alice, opera de forma cruel, estabelecendo uma relação de medo e punição. “ É melhor ser temida do que ser amada”, diz a rainha para Alice. Anne opera na mesma direção ressaltando seus desejos em primeiro plano sem considerar o outro como sujeito. Faz uso do outro como puro objeto de manipulação. Parece Anne numa busca de apreender o tempo, gostaria que seu corpo fosse jovem, se analisa no espelho, sentindo na pele os efeitos dos anos. Nesse sentido, poderia ser a relação com Gustav uma possível tentativa de resgatar sua juventude perdida. Uma personagem contraditória pois ao mesmo tempo atua na defesa de jovens vítimas de abuso.


Em Alice, há a incidência ao ato de devorar e ser devorado, comer, beber, aumentar e diminuir de tamanho, o que causa angústia da personagem. Processo semelhante ao que passa Gustav, não sabe se está sendo devorado ou se devora a madrasta. Está passando por um momento de grande vulnerabilidade psíquica e gostaria de ser maior do que é, tem corpo de homem mas ainda a complexidade do infantil, assim como Alice, cresce demasiadamente dentro de casa e se instaura uma relação de hostilidade, desejo e violência.


“Eu realmente espero que me faça crescer novamente, pois estou bastante cansada de ser essa coisinha pequena!” (CARROLL, 2015, p. 59)


Gustav apesar de ser inserido na vida sexual antes do envolvimento amoroso com a madrasta, se depara com a indecisão acerca de seu tamanho. Seria um jovem ingressando na vida sexual ou um homem adulto com propriedade para fazer suas escolhas, inclusive a esposa de seu pai? Ao recorrer por justiça sobre o envolvimento abusivo, Anne formula frases a Gustav como, “você não queria?”, “você não é mais uma criança”, fazendo com que o jovem se angustie ainda mais diante da dúvida sobre quem era e qual seria seu real tamanho diante de sentimentos tão ambivalentes. A adolescência é uma fase marcada por inscrições das diferenças para que seja possível fazer a travessia de diferenciação dos pais. No caso de Gustav, essa travessia é destituída pois não se vê reconhecido em sua experiência.


“Cortem-lhe a cabeça”, diz a rainha de copas para quem a contraria.


O julgamento final da trama se encerra com Anne literalmente “cortando a cabeça” de Gustav, o rapaz perde a cabeça no seu apaixonamento e culpa o que o faz tomar atitudes trágicas e sem reparação. Acho fundamental pensar no papel do pai na trama, é como se ele assistisse sem tomar o cuidado acolhedor da figura paterna, aquele que representa a lei. Sendo assim, o papel da lei não opera e o crime se instaura. Gustav é manipulado como cartas no baralho. Assim como a rainha de copas de Carroll em que a sentença ocorre antes do julgamento, Gustav é sentenciado no seu não lugar, não é escutado e validado na sua dor, há um choque violento que instaura o trauma no encontro com o desmentido pelo adulto abusador. Anne inverte os sentidos da ordem ao negar a realidade dos fatos se apropriando da verdade, se apropriando da lei de forma perversa, as manipulando para sua própria conveniência. Freud em o mal estar na civilização relata sobre a criação das leis para que seja possível se estabelecer uma comunidade. Alegando sobre a natureza humana hostil e o contato ameaçador com a agressividade. Essa ambivalência também presente em Gustav ressalta seu sentimento de culpa, com figuras paternas não confiáveis.


Uma das cenas do filme em que Gustav se pendura na árvore durante uma festa familiar me faz pensar nessa falta de pertencimento e acolhimento. Ele se joga da árvore e cai aos pés do pai em uma demonstração coletiva de um ato de horror. Todos assistem a cena do suposto suicídio, pai parece preocupado e logo em seguida Gustav começa a rir sinalizando uma brincadeira. Esse ato acaba por se concluir de forma efetiva e trágica no final, só que desta vez ninguém o segura da queda. Morre na presença de todos e ainda sendo estigmatizado como o culpado pelo ato violento que sofreu. Uma demonstração da sua vulnerabilidade e desamparo, na presença de um pai impossibilitado de instaurar a lei. Filho tenta conseguir seu apoio mas é abandonado pela segunda vez no vazio de sua fala.


Quais são as leis que regem o mundo?


“Eu sou louco, você é louca, aqui somos todos loucos, se você não fosse não estaria aqui”, diz para Alice o gato de Cheshire.


A transgressão das leis, assim como Alice se depara com a loucura do mundo adulto, Gustav enlouquece por não ter seu lugar de sujeito validado por aqueles que ama causando um efeito devastador no psiquismo, carregando a culpa da agressão do que vivenciou. A saída que Gustav encontra é o próprio aniquilamento.


Um filme que nos remete a importância de se tratar de um tema tão recorrente e traumático nas vidas familiares, a criança / jovem adulto em contato com a sexualidade precoce e sem a capacidade elaborativa para integrar experiências de intensa carga libidinal. Para uma sociedade mais justa, menos abusiva e em que as leis operem na direção de sujeitos mais integrados, se faz cada vez mais necessário esse diálogo.


Referências

Adoro cinema, disponível em http://www.adorocinema.com/filmes/filme-270186/criticas-adorocinema/

TELLES. S (2015): A perplexidade de Alice, disponível em https://www.polbr.med.br/ano17/psi0517.php

FREUD. S. (1930): O mal estar na civilização. Obras Completas, v. 10, Ed. Companhia das Letras, 2010

Ciclo de cinema e psicanálise, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=C_gaqJjOqqA


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