A Hora da Estrela



“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim à outra molécula e começou a vida.” Assim começa a obra “A Hora da Estrela”, publicada em 1977, dois meses antes do falecimento da autora Clarice Lispector.

O livro narra a triste história de Macabéa, uma moça que migra do nordeste para o Rio de Janeiro - “tão pobre que só comia cachorro quente”.

Sua pobreza não está apenas na falta de recursos intelectuais e financeiros, mas sobretudo no empobrecimento de existir. “Existir é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece. Existir não é lógico”.


Com forte tom crítico e social, a obra é apresentada por um autor personagem onipresente, Rodrigo S. M, que compartilha seus próprios pensamentos ao longo da narrativa.

“Escrevo, portanto, não por causa da nordestina, mas por motivo grave de ‘força maior’, como se diz nos requerimentos oficiais, por ‘força da lei’.”

“Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados.”

A escrita é retratada como sobrevivência e, neste sentido, Rodrigo talvez represente os sentimentos de Clarice. Como já dizia Freud, “A escrita é, na sua origem, a linguagem do ausente”.


Na ânsia pela descoberta de si, e no contato com a extrema solidão, Macabéa usa os recursos que tem à mão. “Como não tinha a quem beijar, beijava a parede. Ao acariciar ela se acariciava a si própria”. Com um encanto sombrio, Clarice conduz o leitor a uma profunda reflexão sobre a existência humana.

Na obra, a arte tem função transcendente. “Chorava porque, através da música, adivinhava talvez que havia outros modos de sentir, havia existências mais delicadas e até com um certo luxo de alma”.


Tal como a protagonista, o estômago do leitor se torna sensível a cada passagem, ao testemunhar a inocência com que Macabéa se contentava com pouco versus a dureza que os demais personagens dirigiam a ela. Olímpico termina o relacionamento com Macabéa, dizendo que “ela era como um cabelo na sopa”. Glória se gaba de sua exuberância diante de pobreza da amiga. Macabéa estava acostumada a não ter coisas boas. “Se contentava com pouco, pois não era nada”.

“Talvez porque haja nela um recolhimento e também porque na pobreza do corpo e espírito eu toco na santidade, eu que quero sentir o sopro do meu além. Para ser mais do que eu, pois tão pouco sou.”


Reflito se o livro seria um rito de passagem que a autora faz ao se despedir da vida, já que retrata o quanto “a morte parece dizer sobre a vida”.

“Na hora da morte, a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante de glória de cada um e é quando como no coral se ouvem agudos sibilantes”.


Clarice parece propor uma reflexão sobre a sentença de vida e morte. Somos condenados a viver e a morrer. Não há escapatória. “A vida é um soco no estômago”. Macabéa sofre de ânsia, mas não vomita para não desperdiçar o pouco que possui internamente. Neste sentido, a sentença de morte seria um alívio para um ser que “vivia de si mesma como se comesse as próprias entranhas?”.

O livro desperta no leitor um mal estar, um desconforto, principalmente pelo final trágico da heroína. Ao morrer Macabéa, algo do leitor morre com ela “para que haja a ressurreição?”.

Em 1930, durante o declínio da bolsa de NY e com a chegada de Hitler ao poder, Freud lança seu célebre texto “O mal estar na civilização”. O pai da psicanálise questiona o que o homem deseja alcançar na vida e indaga sobre o fracasso na eterna busca da felicidade. O sofrimento nos alcança mais fácil porque nos capta pelo corpo. No mundo externo, a incessante tentativa de dominar a natureza traz ao homem e às suas relações o sentimento de fracasso, especialmente em tempos pandêmicos.

Freud questiona a busca por fórmulas para quem deseja evitar o sofrimento. “Por sentirmos demais, tentamos encontrar formas de sentir menos”. Antidepressivos, drogas e álcool, por exemplo, proporcionam sensações imediatas de prazer ao corpo.


Para se manter na civilização, o homem precisa renunciar a seus instintos. “Ama ao teu próximo como ama a ti mesmo” e outros mandamentos que regem a civilização humana não operam na prática. Há uma intensa carga de agressividade, que é parte da constituição humana. “O homem é o lobo do homem”, neste sentido, se aproxima da escrita de Clarice ao retratar uma personagem devorada pelo instinto agressivo de uma sociedade desigual. A sujeira, o dejeto, o feio, são protagonistas nas suas histórias.

A cartomante (último personagem da história) surge na vida de Macabéa com previsões que a fazem ter “explosões’” (esse é o único sentimento claro que Macabéa identifica: explosões), tornando-a pela primeira vez uma “pessoa grávida de futuro”. Esperançosa com a chegada de sua hora e vez diante do possível encontro com seu príncipe de olhos claros e estrangeiro, ela conheceria finalmente o amor. Mas, neste instante, é atropelada por um carro de luxo. Esse sentimento de atropelamento permanece no leitor como o encontro com o estranho que a escrita de Clarice evoca. É preciso ousar para seguir lendo suas obras, acessando tantas sensações de estranhamento.


O livro se inicia com a vida, com um sim, e se encerra com “a vida comendo a própria vida”.

Cumprimos o pedido do autor, rezamos por Macabéa, “uma caixinha de música meio desafinada”, que desperta o mais estridente grito no silêncio.

Em dezembro de 1977, os jornais registraram a morte de Clarice Lispector, a grande estrela da literatura brasileira. Se suas obras se tornaram imortais, o enigma de quem foi Clarice permanece.

Quanto mais mergulhamos no conteúdo de suas obras, mais percebemos uma escrita de um ser inquieto e insuficiente. “A morte é um encontro consigo”. Seria suficiente uma vida para ler e reler a literatura de Clarice? O leitor que ousa essa empreitada não pode esperar um entendimento completo da obra, mas sim uma oportunidade única de estar em contato com uma escrita “que provoca necessidade”. Acredito que esta seja a missão maior dos grandes textos: provocar movimento no leitor.

Se é possível chegar ao âmago da obra clariciana? Se a sentença de vida me permitir, sim, mas “não esquecer que por enquanto ainda é tempo de morangos”.


Por Carla Belintani

Referências bibliográficas:


FREUD, S. O mal estar na civilização [1930].Trad. Paulo César de Souza In: Obras Completas volume 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.A hora da estrela


LISPECTOR C. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 2006


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