A mitologia e os novos mitos


Em tempos de redes sociais superpovoadas por influencers e reality shows batendo recordes de audiência, algo nos diz que estamos constantemente convidados a fazer um pacto: um vive enquanto o outro assiste. Nos transformamos em espectadores da história alheia, criando identificações com personagens que acreditamos ser íntimos apenas por habitarem nossas timelines, sem nos darmos conta de que o que pauta estas relações são contratos publicitários.

A comparação com a vida que idealizamos, quase sempre inatingível, gera patologias, entre elas aquela que parece ser a grande vilã do século XXI: a depressão. Buscar um modelo existencial inspirado em celebridades reduz nosso potencial de originalidade, empobrecendo a vida e fragilizando um eu cada vez mais acuado e vulnerável.

Por outro lado, a saúde mental na rotina das pessoas nunca foi tão valorizada. Nesta nova e desafiadora realidade pandêmica, nos isolamos do mundo externo para, querendo ou não, mergulhar no mundo interno - para o bem e para o mal. Diante da privação da vida, votar para que Rodolfo seja eliminado no paredão se torna uma alternativa para lidar com o que mais tememos?

Na contramão, a leitura surge como forma de estimular caminhos pessoais e intransferíveis. Porque ler proporciona o fortalecimento do eu, instiga o pensar e favorece o encontro de experimentações criativas mais ricas e interessantes. Não há maneira certa ou errada de se viver. Feliz ou infelizmente, não existe “Vida: manual do proprietário”. Ainda assim, oculto atrás de histórias transgeracionais, há um imenso potencial de desenvolvimento e reflexões que podem nos ajudar a acessar nossa singularidade.

Como tudo isso se relaciona com a mitologia?

Mitos são histórias ancestrais sobre a busca da verdade humana. Neles, são narrados os grandes conflitos pessoais: o medo da finitude, a procura por um sentido e o indecifrável enigma do que é, afinal, ser humano.

A mitologia, ao contrário do universo das celebridades, oferece heróis admiráveis não por seus feitos épicos, mas por sua decadência. Não há o imperativo da felicidade na mitologia. O que existe são especulações genuínas sobre a busca da origem particular de cada um na construção de sua própria narrativa.

Conflito, dor e fracasso são a gênese das histórias mitológicas.

Estamos todos exaustos, contando os dias para o fim da pandemia. Queremos nos aglomerar de novo nos bloquinhos, nos encontrar em restaurantes e museus e nos abraçar no cinema. O estar junto se tornou perigoso.

Estes sentimentos encontram eco na literatura. No livro “O amor nos tempos do coléra”, de Gabriel Garcia Marques, acompanhamos a travessia de Firmino em busca de seu amor. Ele espera pela amada 53 anos, 4 meses e 11 dias. E relata: “O amor se torna maior e mais forte na calamidade”.

Na leitura mitológica de Homero, encontramos Ulisses em sua Odisseia, enfrentando o mar que o convoca por todos os lados. Não há escapatória em sua jornada. Testemunhamos Penélope tecendo, por anos a fio, à espera do retorno de seu amor. Cruzamos terras desconhecidas, vivemos experiências aterrorizantes, evocamos mortos e sentimos na pele a ausência de rituais.

No mito Édipo Rei, conceito base para Freud elaborar um dos pilares da psicanálise, Édipo cumpre a vida segundo as determinações do seu oráculo. A obra nos faz refletir, entre tantos aspectos, sobre o fato de não sermos senhores do nosso destino, mas movidos por nossos desejos inconscientes. Se neste momento um vírus comanda boa parte de nossas escolhas, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

O mito ainda possui conotação atemporal. Por ter caráter de ficção, porta a verdade da relação humana entre a existência e a experiência.

Algumas produções brasileiras são incontestavelmente mitologia de primeira grandeza.

Na obra “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, o herói Riobaldo narra sua travessia pelo grande sertão da existência humana.

Ele tem status de mito, pois se torna herói por seu declínio e redenção.

A tragédia de Riobaldo é se tornar sujeito do próprio desejo, enquanto segue Diadorim pelos caminhos do sertão. Mas quem é Diadorim? "Diadorim é a minha neblina" porta um enigma.

Afinal, por que não nos inspiramos mais em heróis que disparam saberes sobre nós mesmos?

A leitura e o estudo dos mitos são um chamado à nossa própria reinvenção, diante de condições às quais não temos clareza e questões às quais não temos resposta.

A mitologia resgata a grande arte de contar histórias.

Por isso, rodas de conversa e espaços de compartilhamento podem ampliar nossas referências. Ler os mitos produz novos questionamentos. E, se não há garantia de encontrarmos a verdade, podemos, no mínimo, viver uma vida mais autêntica.

“O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando” (Rosa)

“Por que a mitologia hoje?” será o tema de nossa próxima roda.

E você é nosso convidado.

Por Carla Belintani


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