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Carta para o passado

14 de mar. de 2023
4 min de leitura

Por Carla Belintani





Muitos dizem que você já passou, que não faz mais diferença. A verdade é que a relação com você é complexa e suas marcas são profundas. Você nos torna quem somos, carrega as experiências mais íntimas de um tempo que não volta mais. Apenas te trazendo para o presente é que se torna possível ressignificar as experiências.


Na prática clínica, é comum ouvir que você já não vale nada, é uma carta fora do baralho, que se tornou esquecido. Você carrega tantos enigmas da existência singular. Cada fragmento seu faz com que o movimento do desejo apareça. A partir do retorno a você, os traumas podem ser elaborados, repetidos e recordados para então ganharem um novo sentido.


Você transporta para sentimentos dúbios, nostalgia, negação, aprisionamento, alegria, ódio, ressentimento, na eterna busca de uma volta impossível. Você vai nos deixando e ficando para trás a cada mudança do ponteiro do relógio, impregnando a existência de múltiplos significados. A ordem esperada é que você vá se tornando cada vez mais extenso, preenchendo de histórias as lacunas da vida de cada um. Parece que quanto mais você permanece, mais se torna um paradigma que se aproxima de um dos maiores tabus da atualidade: as marcas do tempo que você deixa no espelho e no quanto seria desejoso voltar a você. É um trabalho contínuo de luto se despedir constantemente da sua impermanência. Como um velho amigo que não vemos há tempos, marcamos, saudosos, um café numa mesa farta, mas o amigo não aparece. O que fica são as lembranças do tempo que passamos juntos e do quanto éramos ingênuos. Mesmo sendo um ser complexo que escapa a cada momento, você permanece deixando seus sinais.


É o tema de estudo de grandes pensadores, entre filósofos, cientistas e, principalmente, psicanalistas. Freud, em seu texto de 1924, faz uma analogia comparando você ao bloco mágico - um brinquedo cuja tela apaga o que está escrito sempre que a tampa é levantada, para que, assim, novas palavras sejam escritas. Essa superfície que é apagada e escrita diversas vezes deixa marcas invisíveis no psiquismo. Mesmo te esquecendo, suas inscrições psíquicas ficam registradas na memória mutável. Você se mistura com seus pares, o presente e o futuro. Essa é a concepção sobre o tempo na psicanálise: um registro não linear chamado realidade psíquica, onde os tempos se misturam e são plurais. É por isso que frente a determinadas experiências, algo de você pode ressurgir, coisas que nem sequer eram lembradas, trazendo novos sentidos. Esse texto é sobre isso, o bloco mágico da memória.


Maria Rita Khel, no seu livro "O tempo e o cão", relata o quanto você participa do tecido da vida e pertence a uma trama de uma "estranha temporalidade". Às vezes você se estende muito mais do que o tempo cronológico, dependendo da intensidade das experiências que propõe. A estranha sensação de passar horas em poucos minutos: quem nunca sentiu isso antes? Você traz profundidade às vivências e faz parte de uma teia complexa de associações em cadeia que coexistem no tempo sem se excluir. Você é fundamental para trazer um sentimento de continuidade entre o que se viveu e o tempo presente.


Stephen Hawking, famoso físico, também reflete, em um de seus best sellers, se você já teve uma origem. A partir daí poderia se aproximar das grandes questões da humanidade: de onde viemos e por que o universo é como é.


Fico me perguntando como você seria se tivesse um corpo; seria a imagem da criança que fomos um dia descobrindo o mar pela primeira vez? De um velho amigo? Ou então de um pássaro colorido que voa longe sem nunca se aproximar? A imagem do primeiro amor ou da primeira grande perda? Ou ainda de um ancião com toda a idade do mundo e sua sabedoria? Pensando na clínica, você está presente tanto no adulto quanto no idoso, pois é o eterno tempo da infância que reaparece, de diferentes formas diante de um corpo mutante que se transforma com a passagem do tempo.


Fazer uma carta a você é retomar a memória, as experiências marcantes do fio da vida. Uma possível forma de resistir ao tempo das depressões, em que impera o vazio. Uma carta com um destinatário específico complexo, pois apesar de pertencer a todos nós, você é único para cada um.


O diálogo com você surgiu como atividade no grupo de estudos sobre envelhecimento no final de 2022 e retomado no clube de leitura da confraria em fevereiro de 2023. Estávamos discutindo o filme "Cinema Paradiso" em que o protagonista Salvatore reencontra Totó, o menino que foi um dia. Uma grande homenagem ao cinema, muito bem colocado em um momento triste de fechamentos de cinemas icônicos em São Paulo. Em parceria com o conto Nenhum, Nenhuma, escrito pelo grande Guimarães Rosa. Uma leitura para ser ruminada aos poucos, palavra por palavra, assim como relata o crítico literário João Adolfo Hansen. "O tempo é a vida da morte." São poucas páginas mas com uma densidade profunda para ser lida nos detalhes de cada linha em que passado, presente e futuro se condensam, e você permanece na memória olfativa. Chega até os personagens como uma nuvem que está em constante desaparecimento. Seguimos tentando compreender os sinais que você nos emite nessa terceira margem, diante deste grande enigma que você nos propõe na eterna possibilidade de trazer alguma sabedoria das suas experiências que nos direcione para uma boa vida. Que essas trocas de hoje permaneçam em nossas memórias nesse espaço que valoriza a permanência da arte como possibilidade de elaborar o luto.



Referência Bibliográfica


Freud, S. (1925). Uma nota sobre o "Bloco mágico". In Obras psicológicas completas (Vol. 16). São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Hawking, S. W. (1942). Uma breve história do tempo. Rio de Janeiro: Intrínsica, 2015.

Kehl, M. R. (2015). O tempo e o cão: a atualidade das depressões (2a ed.). São Paulo: Boitempo.

Rosa, G. R. (1988). Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.



Encontro 06


Quando?


16/03/23


Roda de conversa on-line: das 19h30 às 21h


Onde?


Na sua casa através do aplicativo ZOOM - Baixar agora! - (Play Store) - (Apple Store)







 
 
 

24 comentários


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