Entre pontes e abismos: Travessias



"Em tempos pandêmicos atravessar é preciso. Atravessar esse tempo em que a vivência do outro dia já é um atravessamento dos maiores. Atravessamento que percorre o corpo, esse modo de estar e ser no mundo. O privado agora está em lente de aumento, não somente a lente do outro, mas a própria. Tudo se torna escancarado, coisas antes inapreensiveis na correria de uma agenda. A rotina exige pausas. Até para se atravessar existe uma trave. Uma pausa daquele momento para outro, uma pausa do tempo. Um respiro, ou até mesmo um pegar folêgo. Por um instante se vê aquele abismo debaixo dos pés, sob uma ponte. Mas refutar já não é possível, ou o caminhar só terá destino para trás. Não seria uma travessia, mas uma volta do que ficou pra trás. Querer voltar para aquilo que já é conhecido, a forma que se é familiar, uma fôrma. Quando se vê abismo, também se vê lacuna. Uma construção possível do que está abaixo apontando para uma outra direção. Despertando pontes nunca antes imaginadas. Pontes de vida, da travessia de nós."


“ Travessia que atravessa do resto.

Traça, travessa. Verso livro do corpo solto.

Andarilho da vida, no instante da noite.

Uma travessia anuncia a outra.

Marca uma lacuna da vida

Daquele abismo que ser lacuna exige

Da mesma lacuna se constrói ponte.

Travessia. Trave se, do outro lado.

Não é penhasco, é abismo.

É passagem, é ponte.

É lacuna, é vida.”


Participe deste sarau literário com o tema travessias. A que este termo te remete?


No dicionário: ação de atravessar de lado a lado uma região, um rio, um mar.


Atravessamos um momento pandêmico e reinventamos a realidade. Qual poesia te ajudou a fazer essa passagem?


Participação especial da psicanalista e escritora Jéssica Caiado autora do livro “Lacunas de Vida em mim”.




Trecho do Livro... Comer, rezar e amar!


"Solto o ar pelo nariz com força, como um touro. - Escute aqui, Sacolão — diz Richard. — Algum dia você vai olhar para trás, para este momento da sua vida, e pensar que época deliciosa de luto ele foi. Vai ver que estava lamentando a sua perda, e que o seu coração estava despedaçado, mas que a sua vida estava mudando, e que você estava no melhor lugar possível do mundo para fazer isso: em um lindo lugar de adoração, cercada de graça. Aproveite esse tempo, aproveite cada minuto. Deixe as coisas se resolverem aqui na Índia. - Mas eu amava ele de verdade. - Grande coisa. Você se apaixonou por uma pessoa, e daí? Não entende o que aconteceu? Esse cara tocou um lugar do seu coração mais profundo do que você pensava que era capaz de alcançar. Em outras palavras, você foi fisgada, menina. Mas esse amor que você sentiu foi só o começo. Isso é só o amor mortal, limitado, café com leite. Espere para ver como você é capaz de amar mais profundamente do que isso. Nossa, Sacolão... você tem a capacidade de um dia amar o mundo inteiro. É o seu destino. Não ria. - Não estou rindo. - Na verdade, eu estava chorando. - E, por favor, não vá você rir de mim agora, mas acho que o motivo pelo qual é tão difícil para mim esquecer esse cara é que eu realmente achava que o David fosse a minha alma gêmea. - Provavelmente era. O problema é que você não entende o que essa expressão significa. As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho, a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea para sempre? Não. Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesmo, e depois vão embora. Acabou, Sacolão. A missão do David era acordar você, tirar você daquele casamento do qual você precisava sair, destroçar um pouquinho o seu ego, mostrar para você os seus obstáculos e vícios, despedaçar o seu coração para uma nova luz poder entrar, deixar você tão desesperada e fora de controle que você fosse obrigada a transformar a sua vida, e depois apresentar você à sua mestra espiritual e sair fora. Essa era a função dele, e ele foi ótimo, mas agora acabou. O problema é que você não consegue aceitar isso, que esse relacionamento tinha um prazo de validade bem curto. Você parece um cachorro cheirando lixo, baby... fica lambendo uma lata vazia, tentando tirar mais comida lá de dentro. E, se você não tomar cuidado, essa lata vai ficar presa no seu focinho para sempre e tornar sua vida infeliz. Então largue isso. - Mas eu amo ele. - Então ame ele. - Mas eu sinto saudade dele. - Então sinta saudade. Mande um pouco de amor e de luz sempre que pensar nele, depois esqueça. Você só está com medo de largar os últimos pedacinhos do David porque aí vai estar sozinha de verdade, e Liz Gilbert morre de medo do que vai acontecer se ficar realmente sozinha. Mas o que você precisa entender é o seguinte, Sacolão. Se você liberar todo esse espaço na sua mente que está usando agora na sua obsessão por esse cara, vai descobrir um vazio ali, um espaço aberto... uma entrada. E adivinhe o que o universo vai fazer com essa entrada? Ele vai entrar... Deus vai entrar... e vai encher você com mais amor do que você jamais sonhou. Então pare de usar o David para fechar essa porta. Esqueça isso. - Mas eu queria que eu e o David... Ele me interrompe. - Está vendo, é esse o seu problema. Você quer coisas demais, baby. Parece uma galinha tentando quebrar o próprio ossinho da sorte. Essa frase me arranca a primeira risada do dia. Então pergunto a Richard: - Então, quanto tempo este luto vai demorar a passar? - Você quer saber a data exata? -É. - Uma data que você possa marcar no seu calendário? -É. - Deixe eu te dizer uma coisa, Sacolão... você precisa parar com essa mania de querer controlar tudo."


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Material de Apoio:


A Travessia


Como gostamos de rememorar as provas pelas quais passou Ulisses, o "herói da resistência", ao longo da travessia que deveria conduzi-lo até sua ilha, fazê-lo reencontrar a esposa ternamente amada, seu velho pai, seu cão fiel: retorno ardentemente desejado, embora sempre adiado, tanto os obstáculos se multiplicam e o afastam de seu objetivo, às vezes, no entanto, bem perto de ser alcançado.

Sim, como a maior parte dos leitores da Odisseia, rememoro esses episódios com medo de esquecer algum deles. Eu os faço desfilar diante dos olhos. Pois eu os vejo como se, junto dos outros companheiros de Ulisses, eu tivesse tomado parte neles. Nem sempre eles aparecem em sequência, minha visão é às vezes distante, outras vezes próxima, e, embora eu conheça bem o final feliz da travessia - o retorno à casa, à terra natal - duvido, diante de cada novo perigo, que Ulisses consiga ultrapassá-lo. Até me acontece de confundir Circe e Calipso, de não diferenciar bem os Lotofágios, os Cicones e os Lestrigões, como um viajante de hoje que, depois de um périplo pela América Latina, misturasse Guatemala com Salvador e não soubesse mais onde situar a Terra do Fogo. Mas pouco me importam essas imprecisões. A Odisseia não é um relato de viagem nem de aventuras, é um canto, e o bardo cego e visionário não age de maneira contínua; Ulisses também, conforme as circunstâncias, faz o relato de um episódio pronto a retomá-lo mais tarde a pedido de um novo interlocutor, e depois virá o registro de uma outra prova.

Portanto, não é um relato contínuo, porque não se trata de uma viagem, mas de uma travessia, a travessia de um mar na maior parte das vezes hostil - tempestades, naufrágios - , a travessia do tempo, uma travessia do desconhecido, povoado por criaturas estranhas, de monstros e quimeras, como os que encontramos em nossos sonhos e pesadelos. Assim, os eventos não poderiam se encadear obedecendo a uma lógica narrativa, mas se sobrepõem em vagas sucessivas na minha memória de leitor.

Certas cenas me estão mais presentes do que outras: aquela, inesquecível e que ainda me faz sonhar, do encontro na praia de Nausicaa e de suas servas, assustadas diante da aparição desse homem nu, tão belo quanto repulsivo; aquela do ciclope Polifemo, de um só olho, enfurnado em sua caverna, imagem do tirano devorador de carne humana; e esse momento-chave da Odisseia - em que Ulisses recusa a imortalidade que lhe oferece Calipso. Não, o seu destino é o destino dos mortais, é a escolha de uma vida em perigo constante, é a escolha de uma vida humana que seja uma travessia.

Há um episódio que para mim permanece enigmático. O que cantam as sereias, essas mulheres aladas que seduzem e matam? O que havia em seu canto de tão sedutor, a ponto de precipitar na morte os infelizes que o escutavam, para que Ulisses obrigasse seus companheiros a tampar os ouvidos e a amarraram-no, com medo de ser seduzido? Em que consistia o perigo? Nas palavras, nas vozes? Seria sob sua aparente doçura um canto de dor, um canto de nostalgia, que anunciava a Ulisses que o retorno à Ítaca jamais aconteceria, que era impossível ou proibido?

A menos que as Sereias chorassem por sua própria sorte, essas criaturas mistas, esses monstros que não são nem mulheres nem pássaros, que não têm nem forma humana nem forma animal. Em dois tempos, a feiticeira Circe transforma os homens em porcos, da mesma maneira como as Sereias os transformam em restos de ossos. Polifemo é canibal. A ordem humana, a forma humana são frágeis, e Ulisses, que recusa ser imortal como os deuses e teme ser transformado em animal, preza sua forma humana. Seria isso que as Sereias ameaçavam? Queriam elas transformá-lo em pedra? A Odisseia é também um livro sobre metamorfoses.

O que elas poderiam lhe murmurar, as temíveis Sereias? "Tu, que dizes ansiar apenas pelo retorno, lembra-te que no início ansiavas apenas pela partida, que foste combatente em Troia durante anos. Tu, que alegas querer apenas retornar à sua terra natal, por que te retardastes em terras estrangeiras? Tu, que afirmas ansiar apenas por encontrar Penélope, reconhece que te esquecestes dela, tua esposa querida, durante os sete anos que passastes junto à ninfa Calipso e quando te juntastes a Circe em seu leito, ou ainda quando fostes menos que insensível aos encantos da jovem Nausicaa. E depois, diz-nos, como aconteceu ter seu proclamado desejo podido encontrar tantos obsctáculos? Deves estar nisso por algum motivo, não?" Tudo isso insinuado com a voz melosa de um investigador de almas.

Ou, ainda, a estas seriam as palavras mais crúeis: "Fostes esquecido, meu pobre Ulisses. Imaginas que Penélope está apenas esperando tua volta, todo esse tempo. Tu te enganas, outros homens a amaram, a amam ainda. Ela deixou de ser sua esposa."

Então a dúvida e uma imensa tristeza se apossam de Ulisses amarrado.

Penélope será a última a reconhecer Ulisses, depois do cão Argo, do criado Eumé, do pai Laerte. Estes tinham congelado o tempo, como se Ulisses nunca os tivesse deixado. Penélope, por sua vez, havia matado o tempo, tecendo e desmanchando o tecido, dia após dia.

Quanto a Ulisses, o herói das resistências, ele tinha atravessado o tempo com Homero. Reconhecido, não mais se nomeará "Ninguém", pois reencontrou seu próprio nome. Reencontrou um ponto fixo: Ítaca, Penélope. Ele renasce. Ele pode morrer.


Antes, J.-B. Pontalis, 2013





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