“O encontro marcado”, Fernando Sabino



“O encontro marcado“, de 1956, é o primeiro romance de Fernando Sabino. O livro narra a busca de si mesmo, o mergulho interno profundo que remete ao processo analítico, repleto de encontros e desencontros. No entanto, talvez a temática que mais desponte da obra é a adolescência, fase turbulenta em que os desejos infantis disputam com os hormônios a condução da passagem da infância à vida adulta.

Como realizar essa travessia? Essa transição é a fase decisiva em que o sujeito está só consigo mesmo na busca de alcançar a outra margem e definir-se como ser desejante no mundo.

Hélio Pellegrino, na introdução da obra, fala do jovem que, sozinho em suas múltiplas experiências, acredita que ganhando o mundo irá ganhar a si mesmo. A busca por uma territorialidade é própria da adolescência e permanece nas demais fases da vida de forma menos intensa. Nesta busca é preciso invadir, mas também se deixar invadir no encontro com o outro. Ocupar e ser ocupado para que haja uma transformação. "Nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio."

O livro é dividido em duas partes, a procura e o encontro. Na própria teoria psicanalítica todo encontro implica um desencontro, pois, assim que alcançamos algo que tanto esperávamos, surge logo em seguida uma nova busca. O que importa é esse movimento, a procura de algo que nos traga sentido.

O livro relata a infância e adolescência do protagonista, Eduardo Marciano. Filho único, aprendeu a ler sozinho e, quando menino, tinha o hábito de se machucar, arranhando-se até começar a sangrar, batendo a cabeça na parede, assustando os pais. Relata ainda a experiência de seu primeiro apaixonamento, o contato com sentimentos intensos, a fragilidade da vida e a descoberta do valor da amizade. Quais os caminhos na construção de um elo consistente no vínculo com o outro?

Eduardo busca o esporte como forma de compensação. Escolhe a natação por não depender de ninguém, apenas de si mesmo. "Olhe o ritmo, nade sozinho". Por outro lado, não consegue se dedicar à sua maior paixão, a escrita. "Escrever é renunciar - eu não sei renunciar." Acompanhamos sua saga em ‘flashes’, o impacto das derrotas inevitáveis ao processo de amadurecimento. A perda do pai parece ser um marco decisivo na trajetória: Poderia ele ser tão bom como o pai havia sido?

O protagonista forma com seus amigos Hugo, Mauro e Eugênio algumas facetas do eu do autor, que, em suas próprias palavras, vivia em si a humanidade inteira. Um dia, ao final do colégio, três destes amigos pactuam um compromisso de se reencontrarem ali mesmo, no ginásio da escola, dali a 20 anos. O que simbolizaria este encontro marcado? A reunião dos amigos representaria o jogo identificatório na busca de uma identidade, a pretensão do sujeito de integrar sua multiplicidade de eus?

Assim como Emil Sinclair e Harry Haller, protagonistas, respectivamente, de “Demian” e “O lobo da estepe” (ambos de Hermann Hesse) e Holden Caulfield, de “O apanhador no campo de centeio” (J. D. Salinger), Eduardo Marciano quer se provar e sustentar sua individualidade. O núcleo comum destes livros talvez seja o desejo escancarado do jovem de se diferenciar das figuras parentais, nem que seja pelo extrapolamento – às vezes nocivo – dos próprios limites. Como as personagens acima citadas, Eduardo também manifesta a ilusão de invulnerabilidade, a partir da recusa adolescente da finitude, o assombro ante a ideia da morte e o deslumbramento com a sexualidade.

Livro popular entre os jovens de gerações passadas, quantos grupos de amigos, influenciados por sua leitura, não marcaram encontros, bem ou mal sucedidos, jurando uma amizade eterna que nem sempre se perpetua?

Embora certos aspectos da narrativa tenham envelhecido mal, encontrando resistência e até mesmo incômodo na sociedade atual, como a banalização do machismo e do racismo estrutural, reflexos da época em que foi escrito, o tema central segue atual, o estilo ainda é provocativo.

Os amigos podem ter ou não se encontrado, o protagonista pode ou não ter achado o que buscava, mas, conforme citação do livro, “é preciso se perder primeiro, para depois se salvar.”

Sabino nos remete à eterna criança que carregamos dentro de nós, o infantil que permanece nas diferentes fases da vida. O encontro marcado com nós mesmos é sempre o mais difícil e necessário.

Recomendamos a leitura.


Carla Belintani e Paula Mandel


Livro presente do @pontolacaniano



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