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"O Quarto do Filho" de Nanni Moretti



“Oh, pedaço de mim

Oh, metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu”


Pedaço de mim, Chico Buarque.


O filme italiano, “O quarto do filho”, de Nanni Moretti, retrata com delicadeza a árdua travessia do luto. Giovanni é psicanalista, casado com Paola e pai de dois filhos: Irene de 18 anos e Andrea de 16 anos. Aparentam ser uma família unida e com laços de amor.

Toda dinâmica familiar se altera quando recebem a notícia de que Andrea faleceu de forma abrupta enquanto mergulhava com os amigos. A partir desse momento, adentramos na dor da perda familiar.



Para Freud, o luto implica um trabalho quando a realidade nos mostra que o objeto amado já não existe mais. Aos poucos, com grande dispêndio de tempo, a libido investida nesse objeto se desloca para novos objetos, substituindo o objeto anterior. Já o psicanalista francês, Jean Allouch, analisa o luto não apenas como a perda de alguém, mas como a perda de um pedaço de si que se vai junto com o objeto amado. Ele nomeia de “morte seca”. O autor faz um contraponto ao texto “Luto e Melancolia”, de Freud, criticando essa substituição da perda por outro objeto. O que está em questão no luto é a inscrição dessa perda e não uma substituição. Para Allouch, o morto vai embora e leva uma parte preciosa do enlutado. Sendo assim, há uma perda no eu, no próprio narcisismo. Como se o sujeito tivesse sido roubado de uma parte de si mesmo.



Não é por acaso que a presença do roubo se faz tão presente no filme de Moretti.

Primeiro há a cena do suposto roubo da pedra do professor na escola, que abre um julgamento para apurar a situação. No final, o próprio Andrea admite ter sido o ladrão.

Depois do falecimento, durante a missa em homenagem a Andrea, o padre diz em seu discurso que “se o mestre soubesse a hora que o ladrão chegaria em casa, ele não seria roubado”. Esse discurso perturba Giovanni. Não estaria ele próprio se sentindo roubado com a perda de seu filho?


A cena seguinte mostra o pai se dando conta de que todos os objetos da casa estão quebrados, rachados ou lascados. Parece demonstrar como estavam se sentindo internamente. Ago se quebrou dentro deles. Nunca mais serão os mesmos, assim como um bule quebrado que, apesar de ter suas pedaços colados, não é mais o mesmo bule.



Que lugar essa família perdeu ao perder Andrea? Acompanhamos o pai, Giovanni, tentando voltar ao passado, alterar o que aconteceu, como se alguma ação sua pudesse impedir a morte do filho. O sentimento de culpa faz parte de uma das fases do luto. Enquanto atende os pacientes, tem pensamentos oníricos como se estivesse revivendo cenas com o filho. Foi preciso se afastar do seu ofício de escutar o outro para escutar a sua própria dor. Como simbolizar uma morte dessas se a perda implica, além do objeto amado, a perda de um pedaço de si?



O processo de elaboração da perda vem representado na figura da namorada de Andrea, Arianna. Giovanni se implica em escrever uma carta para ela contando o ocorrido, uma possível tentativa de escrever o luto e inscrever a perda internamente.



Quando vai à loja de CD’s para comprar um disco para o filho, Giovanni se dá conta de que sempre ouviu músicas italianas e, então, começa a escutar uma canção em inglês. Há algo de estrangeiro na passagem do luto, não por acaso o pai se permite ouvir pela primeira vez uma música em outra língua. A música final, “By this River”, de Brian Eno, conta a história de um casal preso por um rio, debaixo de um céu que está sempre caindo, como se estivessem em um oceano. Os momentos iniciais da perda há um certo aprisionamento na dor do luto.



Na última cena do filme, a família literalmente atravessa a fronteira e chega à França, perto do oceano, onde parece acontecer o primeiro momento de elaboração desse precioso pedaço que perderam.




Perto da imensidão do mar, se conectam para um possível recomeço. Mesmo havendo essa aridez de uma perda insubstituível, há um resto de vida que permanece na fluidez do oceano.


Por Carla Belintani


Referências


Érotica do Luto - no tempo da morte seca - Jean Allouch (2004)


Luto e Melancolia - Freud (1915)


Música Pedaço de Mim - Chico Buarque (1978)

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Gratidão pelo tempo dedicado aos encontros. Gratidão pelo olhar sensível e generoso.

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