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Os sonhos não envelhecem: psicanálise, desejo e o tempo no envelhecimento


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“Os sonhos não envelhecem”, frase que atravessou uma geração, do disco Clube da Esquina, ecoa para além da música. Ela remete à possibilidade de que o envelhecimento não apague o movimento interno do desejo, nem a potência de sonhar. Tal pensamento se aproxima da provocação de Jack Messy (1992) ao afirmar que “a pessoa idosa não existe” — não como negação da idade cronológica, mas como destaque para o sujeito do inconsciente, que não se define pelo tempo do corpo.


O sujeito, na clínica psicanalítica, é entendido em outro registro: o do inconsciente, que não obedece ao calendário. Nesse espaço, sonhos e desejos não apenas sobrevivem, mas podem ser revisitados e reinventados. Messy lembra que, na circulação da libido, não há jovem nem velho. O desejo, nesse sentido, é atemporal.


Ainda assim, observa-se um preconceito persistente em reconhecer que, na velhice, existe um sujeito desejante. Muitas vezes, essa dificuldade nasce da tensão entre um psiquismo que continua a desejar e um corpo que já não responde como antes. A velhice, sob o olhar social, carrega um parentesco incômodo com o adoecimento e a morte — e, em uma cultura que idolatra a juventude, essa associação intensifica o tabu. Tal como ocorre com o luto, falar de envelhecimento significa falar de perdas, tema para o qual raramente há espaços de escuta e elaboração.


Freud, em “Luto e Melancolia” (1917), já indicava que a vida é atravessada por perdas inevitáveis — de pessoas, de papéis sociais, de capacidades físicas. No envelhecimento, esses lutos se multiplicam, exigindo processos de reorganização psíquica para que seja possível investir novamente no viver. Ao mesmo tempo, como afirma Freud em outros textos, não possuímos representação direta da própria morte, o que gera um temor difuso. Talvez o medo não seja da morte em si, mas da ideia que construímos dela.


Outro aspecto central é o tempo. Na psicanálise, ele não é apenas cronológico, mas também psíquico — marcado pela atemporalidade, em que passado e presente se interpenetram, e o futuro pode projetar-se sobre o agora. No envelhecimento, essa percepção se acentua: o tempo parece “escorrer pelas mãos” e, ao mesmo tempo, certas experiências antigas permanecem vivas e atuais. Pontalis (2011) escreve: “A única eternidade a que aspiramos é a do instante. Não desejamos ser imortais, mas temos a capacidade de ser atemporais, desde que permaneçam em nós todas as idades da vida, todas as idades no tempo de um instante.O corpo, por sua vez, torna-se lugar de significações complexas. Diana Singer, ao tratar do “ego horror”, aponta para a relação entre o ego ideal e sua face negativa — imagens que remetem ao corpo fragmentado, ao desamparo, à ameaça de colapso da coesão do eu. Em uma cultura centrada na imagem e na estética, a velhice pode ser vivida como a quebra do “espelho” que devolve a ilusão narcísica da juventude. Nesse jogo de olhares, o corpo envelhecido é confrontado com sua finitude, enquanto o desejo persiste, desloca-se e se reinventa.


Envelhecer, assim, não é apenas um processo biológico, mas também psíquico, simbólico e cultural. Entre perdas e reinvenções, entre cronologia e atemporalidade, entre espelhos e sonhos, permanece a possibilidade de viver intensamente — no instante, como refere Pontalis


Por Renata Cattacini


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Bibliografia

● Freud, S. (1917). Luto e Melancolia. In: Obras Completas, vol. 14. Rio de Janeiro: Imago.

● Messy, J. (1992). A pessoa idosa não existe. Lisboa: Instituto Piaget.

● Pontalis, J.-B. (2011). O amor das começos. Rio de Janeiro: Zahar.

● Rosa, C. M. & Vilhena, J. (2016). Velhice e Psicanálise: desafios contemporâneos. São Paulo: Blucher.

● Singer, D. (2011). “Ego horror”. In: Psicanálise e Envelhecimento: perspectivas clínicas. São Paulo: Casa do Psicólogo.

 
 
 

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