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Para Alice Munro

Texto publicado no Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.


Carla Belintani faz uma linda homenagem à Alice Munro, a escritora canadense recém falecida aos 92 anos. Confiram:


Nobel de Literatura em 2013



 “Nós dizemos de certas coisas que elas não podem ser perdoadas, ou que nunca vamos nos perdoar. Mas perdoamos – perdoamos o tempo todo.”


O perdão, perdoar e ser perdoado são temas recorrentes na escrita de Alice Munro. Não como um ato de conformismo, mas integrador dos aspectos mais sombrios e íntimos que habitam as relações humanas. Este conceito está em sintonia com Freud, quando disse “poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons”.


Se Freud buscava, feito um arqueólogo, a verdade sobre a natureza humana, Munro escancara essas verdades “vergonhosas” como culpa, traição e abandono, mas sinaliza sempre a possibilidade de redenção.


Suas histórias revelam desejos inconfessáveis que, muitas vezes, são velados. E seus livros, todos de contos, relatam o cotidiano com uma escrita cortante e afiada.


“Eu gosto de escrever de uma maneira que talvez assuste as pessoas”, relata Munro.


Assim como a psicanálise nos faz refletir sobre as ações que não temos controle, os contos de Munro causam no leitor um certo suspense, próprio do movimento da vida, marcado por tensões e reviravoltas na jornada dos personagens.


Alguns contos de Munro já foram adaptados para o cinema.


Para escrever o roteiro do filme “Julieta”, Almodóvar se inspirou nos últimos três contos do livro “A fugitiva”. Aqui, o tema da feminilidade e a devastação da relação entre mãe e filha são o ponto central da narrativa.


Sarah Polley se inspirou no conto “O Urso Atravessou a Montanha” para o roteiro do filme “Longe dela”.


Nessa história, Munro traz o tema do envelhecimento, da memória e da finitude. A personagem principal sofre de demência e as lembranças com o marido vão se apagando. “Eu estou indo, mas ainda não fui”, diz a protagonista Fiona para o marido.


O quadro demencial é multifatorial, mas pesquisas sobre o tema - sob a ótica da psicanálise - apontam para a problemática do luto. Pessoas que desenvolveram esse quadro passaram por alguma perda cujo trabalho de luto não foi elaborado.


Aqui há a premissa de uma traição que nunca foi discutida pelo casal quando o marido era professor e acabara se envolvendo com uma aluna.


Munro nos deixa esse mistério: seria a traição um luto impossível de ser elaborado nesta história?


Enquanto isso, na vida pessoal, Munro estava com demência havia mais de dez anos. Nesse sentido, poderíamos tecer um fio condutor entre a personagem Fiona e a própria escritora?


Haveria alguma perda na vida de Munro em que o trabalho de luto não foi realizado?


Ela nos deixa mais perguntas que respostas, tanto sobre si mesma quanto sobre suas personagens. E, nesse sentido, nos ensina que nem tudo tem uma resposta. Há enigmas que continuarão em suspenso. E perdas impossíveis de serem recuperadas, mas que podem ser ressignificadas.


A única resposta segura é que seu legado continuará vivo para quem ousar adentrar em seu universo. Munro faleceu no dia 13 de maio, aos 92 anos, mas sua obra permanecerá imortal, preservando para sempre o legado dessa grande escritora que nos provoca a pensar sobre o impossível da vida.





Algumas obras da autora: “Vida Querida”, “O progresso do amor”, “Amiga de Juventude”, “Fugitiva” e “Ódio, Amizade, Namoro, Amor e Casamento”.


Roda de conversa sobre o conto “Noite” em outubro de 2017 com a Confraria das Lagartixas


Roda de conversa sobre o conto “O Sonho de Mamãe” em junho de 2019 na Livraria da Vila.


“Julieta” de Almodóvar


Cena do filme "Longe Dela” de Sarah Polley

4 Comments


Conheço pouco de Alice, agradeço a Carla Belintani, pelo lindo texto, por ter aguçado em mim a vontade de conhecer mais as obras da autora. Obrigada.

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Com delicadeza a autora do texto consegue tangenciar aspectos profundos da existência humana. Parabéns.

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Texto bonito. Bela homenagem.

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Belo texto, Carla!

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