Projeto Travessias

Sobre a Transitoriedade

Por Carla Belintani




"O real não está na saída e nem na chegada:

ele se dispõe para a gente é no meio da travessia."

Guimarães Rosa


Em seu texto escrito em 1916, Sobre a Transitoriedade, Freud relata a conversa que teve durante um passeio no campo com o amigo e poeta Rilke. Caminhavam admirando a natureza, enquanto o amigo dizia de forma melancólica que lamentava que toda aquela beleza fosse desaparecer um dia. Estava triste diante da constatação do efêmero da vida, como se as coisas perdessem por estarem fadadas ao fim. Freud responde que a natureza opera em ciclos: a primavera termina, mas volta a florescer. A preciosidade da vida aumenta justamente por sua finitude.

“Se existir uma flor que floresça apenas uma noite, ela não nos parecerá menos formosa por isso.”

O texto nos faz também refletir sobre a dificuldade que temos em elaborar lutos das perdas inevitáveis que a vida nos impõe. Na tentativa de nos tornarmos imortais, recorremos a criações artísticas como a literatura, perpetuamos nossa espécie tendo filhos ou plantamos árvores para que nossas marcas e sementes permaneçam, apesar de toda a impermanência.


O artigo foi escrito em 1915 durante o segundo ano da primeira grande guerra (1914 - 1918). Freud observa a destruição causada pelo conflito com suas inúmeras mortes e o extermínio de patrimônios.


Mas Freud é otimista, acredita na capacidade humana de reconstruir o que a guerra destruiu, talvez até em terreno mais firme e duradouro do que antes.


Como um texto de 105 anos se relaciona com os tempos atuais?


Estamos vivendo uma guerra contra uma peste. Nunca testemunhamos tantas mortes. Vivemos um luto coletivo. O momento exige força, paciência e resiliência. Precisamos mais do que nunca nos proteger do desamparo e nos fortalecer enquanto cidadãos. Quando protegemos os outros resgatamos o conceito de cidadania. Buscamos esperança. Quando os abraços não forem mais um perigo, talvez algo sobre nós se revele, algo que ainda não podemos perceber. Os rituais necessitam permanecer para, aos poucos, nos reconstruir. Um dia a tragédia será memória e, como um processo de análise, vamos rememorando e costurando o passado para que a dor possa ser ressignificada.


Assim, em meio a essas e tantas outras reflexões, nasce o Projeto Travessias. Como diz J.B. Pontalis, travessia não é a viagem, mas o percurso, muitas vezes, hostil. É a travessia do tempo, uma travessia do desconhecido, povoado por criaturas estranhas, como as que encontramos em nossos sonhos e pesadelos.


O Projeto Travessias se propõe a ser um ato de resistência. Como diria Riobaldo, "viver é muito perigoso" mas durante este percurso oferecemos rodas de conversa tendo a arte como possibilidade de transformação, renascimento e reconstrução.


Estão todos convidados.