Reflexões sobre “Moça quase-viva enrodilhada numa amoreira quase-morta”


“Moça quase-viva enrodilhada numa amoreira quase-morta”

De Evandro Affonso Ferreira, Ed. Nós



“Quando amam, não desejam, e quando desejam, não podem amar” (Freud (1912-2017), “Sobre a mais comum depreciação na vida amorosa”)



Neste livro pequeno em tamanho, mas grandioso em lirismo, o autor explora os desencontros entre Poeta e Musa, que se buscam, sem jamais nutrirem-se um ao outro a contento. Na primeira parte, o Poeta procura sua Musa, ansiando seu corpo, seu amor para poder criar. Ela é a inspiração em seus versos, o sonho tão próximo, mas nunca satisfeito. Mesmo estando ela ao alcance de seus braços, o Poeta se refugia nos cantos de seu desconsolo, de onde lamenta a impossibilidade da consumação deste amor. “Não posso morrer para sempre sem viver você um pouquinho.” “Ah, meu amor, foi pensando o tempo todo em você que adquiri o hábito de apalpar o impossível.”

Na segunda parte é a Musa quem busca o Poeta para confirmar sua existência. Sem eles, os versos, ela não vive. Por isso, implora por ao menos um poema que a resgate do exílio das musas. Lá ela se sente destroçada, um caco-de-verso-inacabado. Um fragmento: “Ah, poeta, sou eu, sua Musa! Vem! Juntos poderíamos viver nos arredores do Provável. Vem! Traga consigo seus inéditos versos...”

Logo, um é o alimento-complemento para a subjetividade do outro. Um complemento egoico? Afinal, como afirma o Poeta: “Eu? Lugarejo despovoado, talismã da Desolação”.

O livro esquadrinha a relação mutual, a simbiose imprescindível à sobrevivência. Neste caso o título do livro funciona à perfeição, rememorando a curiosa situação encontrada na natureza onde dois organismos interagem em dependência permanente e obrigatória. Como uma trepadeira em flor enrodilhada numa árvore.

O encaixe curioso é que Poeta e Musa tampouco podem satisfazer seu desejo de estar juntos. O convívio concreto seria insuportável, fatalmente causador de Desilusão, que, não à toa, o autor escreve com “D” maiúsculo para salientar a envergadura do desastre que seria a efetivação do encontro.

O paradoxo relembra o amor impossível de Tristão e Isolda, lenda medieval retratada em versões literárias e transformada em ópera por Richard Wagner. Juntos são quase-vivos, separados, quase-mortos:

“Querido amigo, disseste a verdade, sou a madressilva e tu a aveleira, ninguém nos poderá separar um do outro sem causar a morte de ambos”; ao que responde Tristão, acompanhando-se à harpa: “Bela amiga, assim é conosco: Nem vós sem mim, nem eu sem vós.”

O ser humano, ao contrário dos outros animais, é desprovido de instinto de acasalamento e reprodução. Somos seres constituídos na fantasia e movidos por uma constelação fantasística e libidinal.

A eterna busca do sujeito por uma completude fictícia, além da insatisfação inerente à condição humana levam ao imbricamento do sujeito neurótico com a fantasia. Esta tem uma função de escape e também de defesa. O neurótico se refugia nela, de onde, por exemplo, justifica a não concretização de um desejo, atribuindo a descompassos diversos a culpa por esta inconclusão.

Poderíamos também refletir sobre a ambivalência: Poeta e Musa, ambos aspectos internos do sujeito, à espera de integração? Em suas pesquisas clínicas, Freud observou pacientes dissociados, em sua vida afetiva, entre a corrente terna e a corrente sensual, o que causaria eterna insatisfação: “A vida amorosa de tais pessoas fica cindida em duas direções, que a arte personifica em amor celestial e amor terreno (ou animal). Quando amam, não desejam, e quando desejam, não podem amar

Em todo caso, recomendamos a leitura desta prosa poética, que nos “enrodilha” do início ao fim.

Por Paula Mandel


FREUD, S. (1912), “Sobre a mais comum depreciação na vida amorosa”, in Obras Completas, Companhia das Letras, vol. 9


WISNIK, J. M., “A paixão dionisíaca em Tristão e Isolda”, 1984, disponível na internet em https://www.artepensamento.com.br/item/a-paixao-dionisiaca-em-tristao-e-isolda/

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