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Sugestão de filme | Valor Sentimental, de Joachim Trier

  • 24 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 6 de fev.



Há filmes que não apenas se assistem — eles nos habitam.

Valor Sentimental é um deles.


A obra de Joachim Trier nos conduz por um território delicado, onde luto, memória, vínculos familiares e criação artística se entrelaçam.


A narrativa acompanha a família Borg, marcada por silêncios, ausências e afetos difíceis de nomear. Gustav, cineasta e pai, tenta se reaproximar das filhas e elaborar seu passado por meio da arte, convidando a filha mais velha, Nora, para protagonizar um filme autobiográfico. Essa tentativa inicial é recusada e a aproximação só se torna possível após a travessia de um longo elaboração dos traumas.



A casa como arquivo afetivo:

A casa onde se passa o filme é mais do que um cenário: é um personagem. Um arquivo afetivo familiar que guarda ecos de gerações, conflitos não elaborados, rachaduras visíveis e invisíveis. As paredes sustentam memórias que insistem em retornar. A rachadura estrutural anunciada por Gustav parece falar, simbolicamente, daquilo que não pôde ser simbolizado: o trauma transgeracional que atravessa o tempo e os corpos.


Nora se identifica com a casa desde menina, tentando escutar seus sentimentos quando era habitada, quando estava vazia ou quando algo se quebrava dentro dela — metáfora direta de seus próprios afetos.



Gustav e Nora: espelhos quebrados

Nora, a filha mais velha, é profundamente marcada pelo distanciamento do pai. Há entre eles uma semelhança inquietante: ambos parecem ter dificuldade em sustentar vínculos próximos.


Agnes, a filha mais nova, surge como contraponto à tentativa artística do pai. Busca compreender, elaborar e construir vínculos — casamento, maternidade — apostando na possibilidade de transformação psíquica.


Arte, duplo e reparação:

Ao recriar o passado, inclusive com uma atriz americana interpretando a versão jovem da mãe falecida, o filme trabalha a noção do duplo, borrando as fronteiras entre realidade e ficção. A arte aparece como mediadora da dor: uma tentativa de dar forma ao vivido, ainda que nunca plenamente elaborado.



Afetos contidos, emoções reprimidas:

A dificuldade de expressão emocional — marca do cinema de Trier — atravessa toda a obra. Silêncios, distâncias e gestos mínimos falam tanto quanto as palavras, convidando o espectador a escutar o que permanece recalcado.


Assisti à pré-estreia. A estreia nos cinemas acontece em 25 de dezembro, data que simboliza nascimento, renovação e esperança. Não por acaso, Valor Sentimental nos convoca a refletir sobre o passado, o perdão e a possibilidade de ressignificar os laços familiares e humanos. Poucos filmes dialogam tão profundamente com esse tempo simbólico.


✨ Valor Sentimental é um convite a olhar para nossas próprias casas internas, nossas rachaduras e silêncios e, quem sabe, encontrar novos modos de dizer, sentir e amar.


Nós, da Casa Frida, desejamos a todos um Bom Natal e uma boa passagem de ano, para que cada sujeito possa habitar suas casas internas com verdadeiro valor sentimental.


Por Carla Belintani




 
 
 

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